POR QUE OS ALUNOS ESCREVEM ERRADO
Escrito por Vicente Martins
Seg, 25 de Julho de 2005 03:00
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POR QUE OS ALUNOS ESCREVEM ERRADO

Vicente Martins
  

Os professores não tomam os erros ou desvios ortográficos dos seus alunos como ponto de partida para um trabalho de orientação pedagógica em direção à escrita escorreita e ideal, referenciada pelas instituições de ensino, principalmente na produção, revisão e avaliação das redações escolares.

 

No entanto, os erros ou desvios (aos olhos dos lingüistas) podem ser, no processo de alfabetização ou de aquisição ou mesmo de desenvolvimento de linguagem, hipóteses importantes para que as crianças ou jovens , no decorrer da formação escolar, consigam ultrapassar as barreiras da língua e possam se comunicar, principalmente por escrito, como as instituições requerem da sociedade letrada.

 

 A escrita ortográfica depende muito da memória. Por que não explorar mais a memória de trabalho dos educandos? Em geral, as crianças demoram um pouco a estocar todo um conjunto de traços das letras do alfabeto, sobretudo quando minúsculas. Caberia um esforço dos pedagogos em propor e desenvolver uma didática que favoreça a assimilação das formas ortográficas da língua culta.

 

Um detalhe a considerar: o traçado das letras, a despeito do nosso automatismo, não é tão fácil. Vejamos, por exemplo, letras, quando minúsculas, como p, b, d, q, que trazem os mesmos traços (segmento da reta, semicírculo) , mas são simétricas, com alterações na rotação, direção, sentido, enfim. Olhemos para elas e chegaremos à conclusão que são tão misteriosamente simétricas e que, por isso mesmo, induzem os alunos à escrita espelhada.

 

A supressão de algumas letras ou de seus traços grafêmicos,  observada nos textos escolares, pode traduzir também a omissão que as crianças (e alguns adultos e diria muitos de nós professores) fazemos na produção da fala. Conscientes ou não. Se a supressão ocorre na fala, aí também devemos trabalhar  a articulação dos fonemas da língua. Se  a omissão das letras ocorre apenas na escrita, um caderno de caligrafia pode em muito ajudar a esse processo de automatismo (como os antigos foram e são, de forma inspirativa, sábios em se tratando de desenvolvimento da linguagem!). Aprender pela repetição, como ensinaram os antigos, ajuda muito no processo de automação das formas ortográficas.

 

 Levamos para a escrita muitas neutralizações da fala, tipo assim: para a forma verbal "vamos", a gente normalmente diz "vamo", apagando o "s", morfema, no final da palavra. Quando a supressão é de sílaba inteira (mas observemos o ambiente fonológico da ocorrência, se no início, no meio ou no fim da palavra), nos assustamos um pouco, mas cabe à criança fazer suas descobertas e, com certeza, logo mais fará a correção lingüística no ensino fundamental, em particular, a 1ª série, esta também uma série que deve cumprir a função de alfabetização e letramento.

A escola deve encarar a educação básica como educação lingüística em que se aprender, em todos os momentos, a ler, a escrever, a falar e a escutar, isto é, a desenvolver as habilidades da língua materna.

 

Certo é que tudo, em língua, tem uma razão de ser e tem uma regularidade própria: mesmo com aparentes erros as crianças estão sempre aprendendo, sistematizando, observando, e de alguma forma nos ensinando a ter paciência com os”  problemas da língua deles” que nós, adultos, já superamos na fase de formação escolar e sabemos, também, que não foi tão nem é fácil assim.

 

Não obstante, nós, adultos, ansiosos , queremos que todas as formas lingüísticas, em geral equívocas (uma fonema pode ser representado por várias letras e uma letra pode representar muitos sons da fala), sejam logo apreendidas. É preciso que os professores tenham paciência no desenvolvimento e processamento da linguagem verbal das crianças, jovens e adultos.

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual vale do Acaraú (UVA), de Sobral.