DEFICIÊNCIA: A INCLUSÃO DO CEGO NAS CLASSES COMUNS
Escrito por Graziela Santos Fernandes da Silva
Dom, 05 de Outubro de 2003 03:00
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DEFICIÊNCIA: a inclusão do cego nas classes comuns

 

Monografia de:
Graziela Santos Fernandes da Silva


Teoria: Um primeiro olhar

 

“A Educação Especial tem sido, com grande freqüência, interpretada como um apêndice indesejável”.[1] E é para esse indesejável que essa pesquisa quer voltar seus olhares.

Tradicionalmente, os alunos têm sido reduzidos a imagens, símbolos ou conceitos. Essa redução é enfatizada quando tratamos de crianças com alguma deficiência, neste caso especifico, a criança cega. Para a Psicanálise, as imagens, os estereótipos e os preconceitos são fenômenos essencialmente imaginários, como se fosse um registro de uma imagem congelada. O problema social começa quando, através dele, nos estigmatizamos as pessoas. (...) A chamada Educação Inclusiva surgiu da importância dessa constatação. Ela veio revelar que a Educação, no mundo todo, vem excluindo, cada vez mais alunos, em vez de incluir. Não é ao acaso que nos preferimos o nosso sistema de crenças, de estereótipos e de preconceitos. Eles mantêm a nossa crença de que as coisas não mudam, de que o real permanece continuamente, o mesmo, não se transformando. Portanto, o que vivemos em relação a Educação  hoje, é um processo de patologização do processo de ensino-aprendizagem, partindo de uma pré-concepção de que os alunos com deficiência não irão se encaixar no ensino regular.[2]

O fato de ser cega não lhe daria tantas limitações (não enxergar) quanto o preconceito e a piedade das pessoas que são responsáveis pelo seu processo de formação educacional. Mas não os culpo, já que essas reações nada mais são do que o fruto da ignorância, ou melhor, da falta de formação. A falta de formação é um processo silencioso, lento, progressivo e cumulativo de noções inadequadas sobre temas-tabu como a deficiência. A falta de formação é o alicerce do preconceito e afasta as pessoas da realidade.[3]

O fundamento dessa pesquisa é olhar para o processo de Inclusão do cego na escola e demonstrar aos professores o quanto é importante refletirmos diante desses tabus.

Em relação à deficiência é possível expressar um texto de Emily Perl Knisley:

 

“Bem-vindo à Holanda”

Freqüentemente sou solicitada a descrever a experiência de dar a luz uma criança com deficiência – uma tentativa de ajudar pessoas que não têm com quem compartilhar essa experiência única a entendê-la e imaginar como é vivenciá-la.

Ter um bebê é como planejar uma fabulosa viagem de férias para a Itália! Você compra montes de guias e faz planos maravilhosos! O Coliseu. O Davi de Michelangelo. As gôndolas em Veneza. Você pode ate aprender algumas frases simples em italiano. É tudo muito excitante.

Após meses de antecipação, finalmente chega o grande dia! Você arruma as malas embarca. Algumas horas depois você aterrissa. O comissário de bordo chega e diz:

“- Bem-vindo à Holanda!”

“- Holanda!?!!”- diz você. “O que quer dizer com Holanda?!! Eu escolhi a Itália! Eu devia ter chegado à Itália. Toda a minha vida eu sonhei em conhecer a Itália.”

Mas houve uma mudança de plano de vôo. Eles aterrissaram na Holanda e é lá que você deve ficar.

A coisa mais importante é que eles não te levaram a um lugar horrível, desagradável, cheio de pestilência, fome e doença. É apenas um lugar diferente.

Logo você deve sair e comprar novos guias. Deve aprender uma nova linguagem. E você irá encontrar todo um grupo de pessoas que nunca encontrou antes.

É apenas um lugar diferente. É mais baixo e menos ensolarado que a Itália. Mas, após alguns minutos, você poderá respirar fundo e olhar ao redor... e começar a notar que a Holanda tem moinhos de vento, tulipas e ate Rembrants e Van Goghs.

Mas, todos os que você conhece estão ocupando indo e vindo da Itália...e estão sempre comentando sobre o tempo maravilhoso que passaram lá. E, por toda a sua vida, você dirá:

“- Sim, lá era onde eu deveria estar. Era tudo o que eu havia planejado”.

E a dor que isso causa nunca, nunca irá embora...porque a perda desse sonho é uma perda extremamente significativa.

Porém...se você passar a sua vida toda remoendo o fato de não haver chegado à Itália, nunca estará livre para apreciar as coisas belas e muito especiais...sobre a Holanda.

 

Aos leitores que estão embarcando nessa viagem, preparados para conhecer as maravilhas da Holanda?

 

Capítulo I – Um breve histórico da Educação Especial

 

A Educação Especial tem se desenvolvido no decorrer da historia da Educação Especial no Brasil como uma modalidade assistencial aos deficientes.

 

(...) Nesse sentido, cabe alertar que, tanto na literatura educacional quanto em documentos técnicos, é freqüente a referencia a situações de atendimento a pessoas deficientes (crianças e/ou adultos) como sendo educacionais, quando uma analise mais cuidadosa revela tratar-se de situações organizadas com outros propósitos que não o educacional.  (MAZZOTTA, 1996:15).

 

Analisando as políticas educacionais podemos estruturar historicamente práticas e atitudes que vem quase sempre determinando atitudes de exclusão social.

Em 1835, o Deputado Cornélio Ferreira apresentou um projeto de lei a Assembléia Legislativa visando oferecer a alfabetização aos cegos e surdos. Esse projeto acabou arquivado.

Foi em 12 de setembro de 1854 que teve inicio no Brasil o atendimento escolar a pessoas com deficiência. Nessa data, o imperador D. Pedro II fundou a primeira escola para cegos na cidade do Rio de Janeiro: O Imperial Instituto doa Meninos Cegos, hoje conhecido como Instituto Benjamin Constant.

 

A fundação do Imperial Instituto deveu-se, em grande parte, a um cego brasileiro, José Álvares de Azevedo, que estudara no Instituto dos Jovens Cegos de Paris, fundado por Valentin Haüy no século XVIII.

(...)

Em 17 de maio de 1890, portanto, já no governo republicano, o Chefe do Governo Provisório, Marechal Deodoro da Fonseca, e o Ministro da Instrução Pública, Correios e Telégrafos, Benjamin Constant Botelho de Magalhães, assinaram o Decreto nº 408, mudando o nome do Instituto para Instituto Nacional dos Cegos e aprovando seu regulamento.

Mais tarde, em 24 de janeiro de 1891, pelo Decreto nº 1.320, a escola passou a denominar-se Instituto Benjamin Constant (IBC), (...).(MAZZOTTA,1996:28)

 

O atendimento no Imperial Instituto dos Meninos Cegos era precário pois atendia apenas 35 dos 15848 alunos cegos existentes na época.

Até 1926, a única instituição especializada para cegos no Brasil era o Instituto Benjamin Constant. A partir desse ano começaram a aumentar o numero de escolas residenciais para cegos caracterizadas como escolas segregadas.

À partir de 1950 houve um aumento na impressão de livros em braile com a instalação da imprensa braile na Fundação para o Livro do Cego no Brasil criada em 1946, hoje a chamada Fundação Dorina Nowill para Cegos. Isso possibilitou melhores condições de estudo para os cegos.

Porém, é importante ressaltar que ate hoje apenas a Fundação Dorina Nowill (São Paulo) e o Instituto Benjamin Constant (Rio de Janeiro) produzem livros em braile no país.

Foi intensificado o atendimento de reabilitação após a 2º Guerra Mundial devido ao grande número de mutilados, cegos e acometidos de outras deficiências.

A década de 50 acabou sendo um marco do inicio da emancipação das pessoas cegas foi quando o Conselho Nacional de Educação autorizou que estudantes cegos ingressassem nas Faculdades de Filosofia, dando a eles oportunidade profissional em nível superior. Também em 1950, foi instalada no Estado de São Paulo a primeira classe Braile em escolas de ensino regular em caráter experimental que posteriormente em 1953 oficializou-se.

Em 1955 foi autorizado pelo governo do Estado de São Paulo um Curso de Especialização para o Ensino dos Cegos no Instituto de Educação Caetano de Campos com duração de um ano.

Foi instituída, a partir de 1960, a Campanha Nacional de Educação dos Cegos subordinado diretamente ao  Ministro de Estado da Educação e Cultura.

Mazzotta destaca dois períodos na evolução da Educação Especial no Brasil: de 1854 a 1956: período caracterizado por iniciativas oficiais e particulares; e de 1957 a 1993: período caracterizado por iniciativas oficiais de âmbito nacional.

A partir da década de 60 os serviços de reabilitação cresceram e se desenvolveram devido a um maior incentivo e apoio oferecido pelo governo. Em 1961, com a homologação da Lei de Diretrizes e Bases 4024/61, a educação da pessoa com deficiência passou a ser integrada ao sistema regular de ensino. Na verdade essa integração não ocorreu pois o atendimento educacional ficava sob a responsabilidade de outras instituições particulares subvencionadas pelo governo.

Em 1972, expedido pela Portaria de 25 de maio, foi instituído pelo ministro um Grupo-Tarefa de Educação Especial.

 

Gerenciado por Nise Pires, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas – INEP -, e integrado pelas diretoras executivas da Campanha Nacional de Educação de Cegos e da Campanha Nacional de Educação e Reeducação de Deficientes Mentais, alem de outros educadores, o mencionado Grupo-Tarefa elaborou um Projeto Prioritário nº 35, incluído no Plano Setorial de Educação e Cultura 1972/74. Dentre os trabalhos do referido Grupo-Tarefa figura, também, a vinda ao Brasil do especialista em educação especial norte-americano James Gallagher, que em novembro de 1972 apresentou o Relatório de Planejamento para o Grupo-Tarefa de Educação Especial do Ministério da Educação e Cultura do Brasil, contendo propostas para a estruturação da educação especial. Tal relatório integrou os estudos do Grupo-Tarefa, cujos resultados contribuíram para a criação, no Ministério da Educação e Cultura, de um órgão central responsável pelo atendimento aos excepcionais no Brasil, o Centro Nacional de Educação Especial – CENESP.

Em 1986, com o Decreto nº 93613 de 21 de novembro, o CENESP foi transformado na Secretaria de Educação Especial – SESPE, e posteriormente foi extinta. Nesse mesmo ano foi criada também a Coordenadoria Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência – CORDE.

Em 19 de novembro de 1992 após a queda do presidente Fernando Collor de Mello, os Ministérios foram reorganizados e reapareceu a Secretaria de Educação Especial – SEESP.

Com essa trajetória histórica traçada podemos observar que a partir da década de 80 as pessoas com deficiência ou com necessidades especiais[4], passaram a serem sujeitos das ações de prevenção, reabilitação, inserção no mercado de trabalho e obtenção de direitos de cidadania. Analisando essa historia é possível constatar que ser portador de necessidades especiais vai alem das deficiências, pois engloba características de uma sociedade.

Sassaki (1997) afirma que em uma sociedade são observadas diversas fases no que se refere às praticas sociais: exclusão social, atendimento segregado, integração social e inclusão social; e que essas podem ocorrer simultaneamente.

Na História da Educação Especial o Movimento de Inclusão Socialvem se delineando vagarosamente.

Nos anos 50 os Estados Unidos abre a pré-escola. Com a origem da pré-escola o sistema educacional começou a se modificar para atender uma minoria. A pré-escola é um importante aliado da Educação Inclusiva, mas isso será abordado mais adiante.

Na década de 60, os cientistas deram um grande impulso ao movimento ao iniciarem uma “discussão de que deficiência mental não seria sinônimo de doença mental” (WERNECK,2000:47).

Já na década de 80, nos paises mais desenvolvidos, o Movimento Inclusivo  ganhou impulso. Nesse momento não era caracterizado como um movimento inclusivo, mas tinha como objetivo inserir deficientes no mercado de trabalho. Após a 2º Guerra Mundial, assim como já foi dito anteriormente, houve uma maior preocupação com os deficientes, afinal eles eram feridos de guerra. Isso também ajudou a delinear o movimento, pois “o mundo começava a creditar na capacidade das pessoas com deficiência”(WERNECK,2000:49). Documentos como a Declaração de Salamanca de 1994 oficializaram o termo inclusão no campo educacional, embasados anteriormente pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948 e estabelecido pela Conferência Mundial sobre Educação para Todos, de 1990.

A tendência é que cada vez mais seja observada a importância do Movimento de Inclusão Social, visto que ele visa muito alem dos portadores de deficiência: ele visa um novo modelo de sociedade.

O Movimento de Inclusão Social será mais bem abordado em um outro capítulo. A intenção agora é somente localizá-lo dentro da História da Educação.

Após delinear-se essa trajetória histórica podemos ressaltar alguns pontos:

Apesar dos avanços o acesso e a permanência dos cegos na escola atingia apenas 1 % dessa população devido a vários fatores e em especial a discriminação.

Também é importante destacar que a Educação Especial no Brasil é muito falha quanto a oferta de serviços e quanto aos recursos financeiros destinados a educação dessa população.

É passível uma constatação quando analisamos a Historia da Educação Especial no Brasil e em especial o histórico do atendimento dado aos portadores de deficiência visual: Até hoje, nenhuma das ações do Estado atenderam a demanda existente. Por outro lado é valido destacar iniciativas particulares dos deficientes e dos não-deficientes como o Laramara e a Fundação Dorina Nowill para Cegos.  

 

Capítulo II - Conceitos, Preconceitos e Estereótipos: o alicerce das práticas sociais

 

 

Além de traçar o histórico das políticas sociais no Brasil, quando delinia-se a trajetória da Educação Especial encontramos também conceitos, preconceitos e conseqüentes estereótipos que também solidificam as praticas educativas.

Sassaki (1997) foi preciso ao afirmar que:

 

Os conceitos são fundamentais para o entendimento das praticas sócias. Eles moldam nossas ações. E nos permitem analisar nossos programas, serviços e políticas sociais, pois os conceitos acompanham a evolução de certos valores éticos, como aqueles em torno da pessoa portadora de deficiência.(SASSAKI, 1997:27)

 

Quando estudamos a Educação Inclusiva temos que entender alguns conceitos. Iniciando os conceitos pré-inclusivistas o modelo médico da deficiência define que a pessoa deficiente tem a necessidade de ser curada para participar da sociedade, refletindo uma das causas da resistência à inclusão.

Os principais propagadores dessa definição são os Centros de Reabilitação.

Caracterizando a deficiência visual, a concepção médica se refere-se a acuidade visual e ao campo visual, dividindo-os em dois tipos: os portadores de cegueira e os portadores de baixa visão.

Outro termo incorporado a esses conceitos foi a integração social em contra partida a inclusão social. Como base da integração social surgiram outros princípios e processos como a normalização e o mainstreaming . Entenda por normalização um processo que encaixa os indivíduos deficientes a um padrão dito “normal”, só que em outro espaço.Esse conceito será mais bem definido no próximo capítulo. Quanto ao mainstreaming podemos entender que “a prática do mainstreaming correspondia ao que hoje consideramos integração de crianças e jovens que conseguem acompanhar aulas comuns sem que a escola tenha uma atitude inclusiva”. (SASSAKI, 1997:33).

Apesar da integração ter conseguido inserir o portador de deficiência na sociedade sua pratica ainda reflete que ele se adapte ao sistema.

Posteriormente, os conceitos inclusivistas, abrangendo com mais ênfase os valores que visavam a inclusão, surgem referindo-se a autonomia (domínio no ambiente), independência (faculdade de decidir) e o impowerment (força interior) dos portadores de deficiência.

É válido enfatizar que autonomia e independência são conceitos distintos. Uma pessoa maior de 18 anos pode ter autonomia para ir a uma boate, mas ser totalmente dependente de uma companhia para ir. Outro exemplo que posso citar é de um cego que tem independência para ir a um restaurante sozinho, mas não tem autonomia para ler o cardápio, se este não estiver em Braile. Nesse ponto seu empowerment poderia levá-lo a reivindicar seus direitos e levá-lo ate mesmo a se reunir com outros cegos e entrar com uma ação para que todos os restaurantes da cidade tenham um cardápio em Braile. Esse tipo de ação é o que muda a vida das pessoas. É importante destacar que os idosos até pouco tempo atrás eram apenas velhinhos. Hoje, com a força de suas ações e por que não, do seu empowerment, os idosos formaram um grupo da 3ºidade, que organiza eventos, bailes e até olimpíadas.

Os três conceitos, ao meu ver, formam um tripé que leva as pessoas que vivem a margem da sociedade, sendo elas portadoras de deficiência ou não, a alcançar seus objetivos. O PODER fazer (autonomia), o DECIDIR o que quer (independência) junto com o QUERER do fundo da alma(empowerment) com certeza leva as pessoas a busca de uma vida mais digna.

Outro ponto relevante ao movimento de inclusão social é a necessidade de se equiparar às oportunidades. Sassaki (1997:40) cita um trecho das Nações Unidas(1996, parágrafo 24) que expressa:

“<< O termo ‘equiparação de oportunidades’ significa o processo através do qual os diversos sistemas da sociedade e do ambiente, tais como serviços, atividades, informações e documentação, são tornados disponíveis para todos, particularmente para pessoas com deficiência >>”.

 

O conceito inclusão social encontra-se baseado no modelo social da deficiência definindo-se assim como um processo social e individual simultâneos.

Entenda como modelo social da deficiência os problemas que a sociedade impõe ao portador de deficiência causando-lhe incapacidade ou desvantagem no desempenho de papeis sociais devido aos ambientes restritivos, as políticas discriminatórias, ao preconceito, aos padrões de normalidade e a desinformação como refere-se Sassaki (1996).

Caracterizando a deficiência visual o modelo médico da deficiência se refere a eficiência visual, ou seja, às possibilidades da pessoa. Na perspectiva educacional o aluno portador de cegueira se desenvolverá no processo de aprendizagem através de seus sentidos cinestésicos, táteis, auditivos, olfativos e gustativos, utilizando o sistema Braile para escrita e leitura. Já o aluno portador de baixa visão se desenvolverá através de seus meios visuais com recursos especializados.

Além disso, o modelo social da deficiência ainda se preocupa em dividir os portadores de cegueira em dois grupos: os cegos congênitos e os portadores de cegueira adquirida, para que sejam oferecidos programas de reabilitação compatíveis.

Alicerçando a teoria do movimento de inclusão social esta o termo Rejeição Zero ou Exclusão Zero, que expressa o fato de não ser possível rejeitar alguém pelo fato dessa pessoa ser portadora de deficiência ou necessidades especiais.

Portanto, essa teoria objetiva como resultado da sua prática, um portador de deficiência que consegue ter uma vida independente, com um papel na sociedade.

Alem desses conceitos, existe um outro importante fator que nos ajuda a entender as práticas sociais e sua evolução.

Ao longo dos tempos temos tratado as deficiências seguindo os seus estereótipos. Não só as deficiências, mas tudo que é diferente do padrão idealizado é excluído em nossa sociedade dos estereótipos.Esse é um dos processos da estrutura de alienação no saber.

O que impera? A semelhança, o grupo, a estandartização. A sociedade industrial comtemporânea chegou a um tal ponto que é possível, pela primeira vez na historia da humanidade, fazer a recriação da própria cultura. Vivemos numa sociedade que transforma tudo em produto, até mesmo a emoção humana.(MRECH, 1999:19)

 

É incrível, mas as imagens imperam sobre os sujeitos. Nossa sociedade se desenvolve (ou não?) em cima de um imaginário social, em busca de um ideal, modelo prévio que deverá ser seguido por todos. “Um modelo prévio que fornece uma crença previa dos sujeitos, de como eles devem agir socialmente”.(MRECH,1999:20).

Contando com as interpretações de MRECH, podemos afirmar que nossa sociedade vem se desenvolvendo através da industria cultural, transformando o saber universal em mais um produto a ser vendido e consumido. Nesse ponto, a mídia apresenta pré-conceitos ou pré-concepções daquilo que a sociedade deveria pensar: uma imagem.

Essas imagens não revelam nada sobre a realidade dos sujeitos e acabam se reduzindo em concepções previas, em preconceito. Esse preconceito que emerge é a base da teoria das desigualdades, alimentando a idéia de que uns sabem mais do que os outros.

Os tratamentos dados aos deficientes visuais circulam de um topo ao outro. São considerados desde brilhantes, inteligentes, com sexto sentido, dádivas de Deus até chegar a considerar que estão pagando pelos pecados dessa, e se possível, de uma outra vida (punição).

A Psicanálise entende os estereótipos como um processo chamado narcisismo.

 

(...). Um nome que emergiu do mito de Narciso. Narciso era o grande amor da ninfa Eco. Mas ela não conseguia se aproximar do amado, porque cada vez que tentava chegar perto dele, repetia apenas o eco das suas palavras. Ou seja, Eco não pensava sozinha, pensava com o pensamento do outro. Apenas um milagre poderia ajudá-la. O que fez com que ela acabasse solicitando a Eros, o Deus do Amor, que colocasse um encantamento em Narciso, para que ele pudesse finalmente se apaixonar por ela. Zeus, compadecido dos sofrimentos de Eco, atende à sua solicitação e lança um encantamento onde Narciso deveria se apaixonar pela primeira pessoa que visse. Acontece que, por azar de Eco, a primeira pessoa que ele acaba vendo, é a sua própria imagem refletida em um lago. O que leva Narciso a tentar se unir à figura amada, fazendo com que ele se afogue ao tentar capturar sua própria imagem.(MRECH,1999:22)

 

O Narcisismo faz com que acreditemos que somente nossa maneira de agir e pensar estão corretas. Assim sendo, aqueles que pensam e agem da mesma maneira acabam reunidos em grupos, resultando em fenômenos narcísicos de massa, como o suicídio em massa daquelas pessoas que acreditavam que o mundo ia acabar.

Todo esse contexto foi delineado para conduzir a uma questão maior e mais complexa. É obvio que o preconceito e os estereótipos estão em todos nós. Porém o que nós educadores fazemos com eles?

Não estou focando o professor como individuo, mas sim o efeito social de suas ações. É nesse ponto que o problema social começa. Os estereótipos e o preconceito padronizam a realidade. O professor acaba por criar uma imagem de como deveria ser. Como resultado temos uma sociedade que estigmatiza junto com uma sociedade que cria estereótipos.(MRECH,1999).

Atualmente na Educação há um predomínio das imagens, dos estereótipos, e do preconceito. Os educadores guardam as imagens dos seus alunos anteriores e se conduzem por elas, esquecendo-se que existe uma nova realidade, um novo contexto para vivenciar. “Educação é um vir-a-ser.”(MRECH,1999:26).

Notoriamente excluímos tudo que está em mudança, transformando-se. Preferimos acreditar que as coisas não se modificam: imaginamos isso e acreditamos ser real (registro imaginário).Para a Psicanálise e para a Educação Inclusiva a perspectiva é ampliar nosso olhar. Ver além das imagens, convivendo com as diferenças e mudanças. Quando dizemos que a Educação é um vir-a-ser nosso pensamento deve estar em movimento. Não devemos parar no ontem, nem nos voltar para o amanha. Devemos apenas estar vindo-a-ser todos os dias.

Mrech cita um outro processo vivenciado na estrutura de alienação no saber: o comportamento fossilizado. Esses comportamentos são incorporados de tal maneira que acabam sendo mecânicos e automáticos na vida, o que inclui o cotidiano escolar. Internalizamos apenas os símbolos e as imagens.

 

É por tudo isso que acreditamos que os atos de pré-concepção da realidade pedagógica revelam apenas posições preconceituosas, de ignorância e desconhecimento por parte daqueles que os realizam. Atos que se revelam que se ficou apenas na ação, na situação previas. Não se conseguindo captar o novo. (MRECH,1999:36).

 

Werneck(2000) é ainda mais precisa ao analisar o comportamento preconceituoso.

A atitude dos adultos é o estopim do preconceito. Criança não discrimina, quer apenas olhar, experimentar a brincadeira daquele amigo, ver de que jeito ele leva a vida Aos poucos, pela impossibilidade que o adulto lhe coloca de ter as vivencias desejadas, ela começa a evitar, a rejeitar o novo.(WERNECK, 2000:140)

 

Afirma que não nos faltam informação, mas sim formação. A falta de formação é cumulativa e se instala em nossa mente refletindo noções inadequadas sobre assuntos como a deficiência. Ela ocorre quando para saciar nossas curiosidades e dúvidas captamos as imagens soltas. A mídia assim como já assinalava Mrech(1999) é um importante meio para propagação dessas imagens estereotipadas. Ela deixa que nós vejamos o que é “feio” (aquilo que não deveríamos ver) sem que isso nos deixe culpados.

É possível citar uma história comum para expressar esse fato.

“Ostomia”

A cena passa-se em 1997.

É hora do jantar.

As travessas fumegam.

Toda a família está reunida à mesa.

O menino de 6 anos não se agüenta de fome e de curiosidade. Rouba uma batata frita e, de boca cheia, despeja:

-“Pai, o que é ostomia? Na minha escola chegou um amigo assim”.

Os adultos se entreolham, atônitos.

Silêncio.

“Que diabo de pergunta é essa?”, reflete o pai.

“E ainda na hora do jantar....”,reflete também, ato contínuo.

A avó sente calafrios. “Será mau agouro?”

Num impulso, num ímpeto, vem a resposta carinhosa da mãe, aliviando o pai”:

- “Não pensa nisso não, meu filho, é tão triste, come senao sua comidinha vai esfriar”.

O menino engole a batata frita.

Sacia a fome, mas não a curiosidade.

A irmã já mocinha pede para alguém passar o suco de maracujá.

Na pressa, esquece do “por favor”.

Por hoje passa.

Importa que o jantar transcorra em harmonia.

Ufa...

O mal-estar já passou.

(WERNECK, 2000:137-138).

 

Quando afirmamos que os conceitos, preconceitos e estereótipos alicerçam as práticas sociais, estamos apenas constatando o óbvio. Por isso é tão importante se assinalar bem esses conceitos, para que consigamos domar nosso preconceito e dissolver os estereótipos. Pra quem ficou curioso, assim como eu, ostomia é uma expressão de origem grega que significa “abertura”. Ostomia é uma abertura feita cirurgicamente quando há necessidade de desviar temporária ou permanentemente o trânsito normal de alimentação, ventilação ou eliminação do paciente, nada mais do que isso.

 

 

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[1] MAZZOTA, M.J.S.Educação Especial no Brasil. Historia e políticas públicas.São Paulo:Cortez, 2001.p.11.
[2] MRECH, L. M. Psicanálise e educação: novos operadores de leitura. São Paulo, Editora Pioneira, 1999.p.23, 24 e 27.
[3] WERNECK, C. Ninguém mais vai ser bonzinho na sociedade inclusiva. Rio de Janeiro:WVA,2000.p.144.
[4] Necessidades Especiais é um termo bastante utilizado por autores que tratam do Movimento de Inclusão Social. Acredito que esse termo é vinculado estrategicamente, afinal todos nós temos necessidades especiais e essa é a idéia do movimento.