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competencia_e_qualidadeEducação: competência e qualidade
Nílson José Machado

Existe um aparente consenso com relação ao fato de que somente uma Educação de qualidade forma pessoas competentes. Não é tão fácil, no entanto, um acordo sobre a ideia de pessoa a ser formada, nem sobre o significado da qualidade no terreno educacional, ou mesmo sobre as dimensões fundamentais das competências a serem desenvolvidas.

(Saiba+)

 

 


 

 


Revista Educação - LACAN - (Especial: Biblioteca do Professor)

A Revista Educação apresenta a coleção especial Biblioteca do Professor e, entre elas, está a Edição nº 9: Lacan Pensa a Educação, que teve como Coordenadora Assistente Leny Magalhães Rech, autora também deste Site (www.educaçãoonline.pro.br).

Nesta edição especial temos o seguinte sumário:

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Psicanalisar e educar ou Psicanálise e Educação
Escrito por Prof. Rinaldo Voltolini
Seg, 09 de Fevereiro de 2009 22:57
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Psicanalisar e educar ou Psicanálise e Educação? Um retorno a Freud

Rinaldo Voltolini



Qual o destino do campo da Psicanálise e Educação?
A existência da “Revista de Pedagogia psicanalítica” (Zeitschrift für psychoanalytische pädagogik), apoiada por Freud, que publicou durante os anos de 1926 a 1937 mais de 300  textos de analistas e outros autores que se dedicaram ao assunto, indicava a pujança desta articulação.
A extinção desta revista, sem a retomada de qualquer projeto equivalente, poderia alimentar a hipótese, já bastante hegemônica nos dias de hoje entre os analistas, de que a esperança na articulação dos dois campos em questão sucumbiu, graças às reformulações ulteriores da teoria psicanalítica, não fosse o fato de que após o grande lapso de silêncio que se seguiu a este momento inicial, ressurgiu, mais recentemente, um interesse crescente dos educadores pela teoria psicanalítica.
Por certo que este interesse se explica, inicialmente, pelo fato de que a Psicanálise é apresentada através da Psicologia, como parte desta, que, por sua vez, ainda reina absoluta entre as preferências da Pedagogia em seu projeto de tornar-se científica. Mas isso não tem impedido, por exemplo, que uma parte significativa de educadores desenvolva um interesse particular para prosseguir seus estudos no interior da conexão Psicanálise e Educação, buscando cursos nos quais esta temática é trabalhada sem sua costumeira psicologização.   
O fato é que isto reacende, pelo menos para os psicanalistas envolvidos nesta particular transmissão da psicanálise a quem não pretende ser psicanalista, a questão sobre sua pertinência, sobre as vicissitudes desta relação, tão sob suspeita para os psicanalistas que temem, como Freud e Lacan, a descaracterização de sua disciplina.
O sutil limite entre a divulgação, inevitável à manutenção no mundo de qualquer disciplina e a vulgarização e pasteurização de seu rigor teórico, fruto de variados interesses, aquece as mais controversas discussões. Mas o risco implicado neste sutil limite deveria ser enfrentado, como o fez Freud, em vez de evitado pela esquiva que busca um suposto abrigo desejado, que muitas vezes não é senão a clausura dogmática, fatal para o destino da Psicanálise na cultura.Quando uma disciplina se fecha para seu papel social e para a discussão com seu exterior, preocupando-se apenas com sua reprodução, ela enfraquece.
Mais uma vez, as pistas para este enfrentamento estão fundamentalmente em Freud. É preciso retornar a Freud, também nesta questão, pelo menos para retomar com ele a habilidade em enfrentar os dois riscos mais temidos, em se tratando das viagens da Psicanálise para as terras alheias, a saber: o risco do amadorismo, inevitável da parte do psicanalista com relação ao campo alheio e a perda do fio de Ariadne que mantém o psicanalista fiel ao rigor de sua teoria.

“Assunto encerrado!”: Millot e a “trama dos conceitos”(1)

Qual o estatuto da educação na obra psicanalítica? Para muitos esta questão nem sequer teria pertinência, não fosse o fato de que o próprio Freud abordou o assunto da Educação. De todas as incursões feitas pelo pai da Psicanálise em terras alheias, com destaque para arte, a literatura, a filosofia, a antropologia e mesmo a mitologia, a da Educação certamente é a que goza de menos prestígio.
É freqüente encontrar Goethe, Joyce, Levy Strauss, Dostoievsky, Hegel, Aristóteles, Dali e Picasso, citados com reverência nos textos produzidos no interior do campo psicanalítico.
Mais raro, porém, de fato quase inexistente, é encontrar Rousseau com seu Emílio, Piaget e suas discussões sobre o sujeito epistêmico, ou seu inconsciente cognitivo por exemplo,  citados  para esclarecer, fomentar, evidenciar uma questão qualquer que interessa ao campo psicanalítico. Ou seja, os psicanalistas não parecem acreditar que autores expoentes do campo educativo possam trazer questões relevantes ao campo psicanalítico.
Talvez isso se deva a herança recebida de Freud, que sempre ressaltou com admiração o que tinha aprendido nas excursões que fez pela literatura, mitologia, etc., exceto na educação, terra em que ele entendia que a Psicanálise tinha a ensinar.
Tanto Freud como Lacan foram entusiastas propositores da idéia de que os psicanalistas deveriam contemplar a erudição em sua formação, não por pedantismo ou por necessidade retórica, mas para possibilitar o alargamento dos horizontes e evitar a tendência ao conservadorismo dogmático, fatal para o trabalho analítico, seja o clínico ou o teórico.
Por acaso, não haveria nos autores que se dedicaram ao tema da Educação, nada que possa interessar aos psicanalistas na elaboração de suas próprias questões, ou, antes, devemos supor que a razão deste desinteresse é de outra ordem? De fato, quantos psicanalistas leram o livro de Pfister, ou o de Aichorn, além do prefácio feito a ele por Freud?
Tal desinteresse bem poderia ter sido creditado à falta de proximidade e de afinidade de questões entre estes campos, como é o caso da Psicanálise com a Física, ou a Química, por exemplo. Afinal, não precisamos pretender que a Psicanálise leve tudo em consideração.
Mas, neste caso, seria preciso desconsiderar o fato de que o próprio Freud se dedicou ao assunto, explicitando e discutindo uma afinidade, diferentemente dos exemplos citados.
Isso denuncia algum tipo de proximidade entre os campos da Psicanálise e Educação. Daí a pertinência da questão:qual o estatuto da Educação na Psicanálise?
Que Freud tenha se dedicado ao assunto da Educação resultou e ainda resulta, para a maioria dos psicanalistas, um fato embaraçoso. Principalmente quando ele definia, como chegou a fazer inúmeras vezes no início de sua obra, o processo analítico como uma sorte de reeducação, ou de pós-educação.
A confusão dos dois registros, educar e psicanalisar, tão laboriosamente discernidos pelo analista é o pano de fundo deste embaraço. Embaraço que deve ter sido, muito provavelmente, a razão pela qual a psicanálise com crianças sempre gozou de um status menos privilegiado na comunidade analítica, uma vez que neste campo era mais arriscado incorrer numa posição educativa.
A proximidade e a diferença entre estes dois registros, ainda que Freud tivesse, a posteriori, conseguido discernir o específico de cada posição, não cessa de não se escrever. Isso porque o fato de que ela tenha sido resolvida teoricamente não elimina a possibilidade de que o analista, durante seu trabalho, seja levado a escorregar para esta posição, dada sua proximidade.
Um quarto de giro apenas, nos discursos elaborados por Lacan (1969-70), separam o analista do educador.
Educar e governar, poderíamos dizer, são as primeiras tentações do psicanalista, quando tem dificuldades para sustentar sua posição, o que explica o parentesco estabelecido entre elas no conhecido aforismo freudiano sobre os três impossíveis.
Lacan (1998) destacou e analisou ambos os riscos em seu texto: A direção do tratamento e os princípios de seu poder.
Quando o analista, em vez de dirigir a cura, dirige o sujeito, governa. Se em vez de levar o analisante a identificar-se com seu próprio sintoma no fim da análise, o leva a identificar-se com o analista, educa.
De certo modo, a história da elaboração teórica da Psicanálise  demonstra que o psicanalista precisa do educador, assim como do governante, para se definir como psicanalista, por sua mínima diferença.
Todos sabemos, desde Freud, o que gera a política da mínima diferença: a guerra.
Talvez esta tensão, típica da mínima diferença, explique porque um livro como o de Catherine Millot: “Freud antipedagogo” (Millot 1987), tenha se tornado, entre nós, um clássico sobre o assunto da Psicanálise e Educação. A presença do termo anti, no título do livro, já não seria um indício de rivalidade?
Em seu percurso, Millot realiza Um particular retorno a Freud, bussolado por Lacan, no qual ela perpassa os textos em que ele se pronuncia diretamente sobre a Educação, bem como os outros em que corre uma discussão paralela, decisiva para suas reflexões sobre a questão educativa.
O livro conclui pela irredutível diferença que há entre o psicanalisar e o educar, cuja conseqüência imediata é a de que não devemos esperar por nenhum método pedagógico de base psicanalítica.
Conclusão acertada, sem dúvida, construída através de um percurso rigoroso feito pela autora, acompanhando a trama dos conceitos da teoria psicanalítica. Mas é curioso que o que era para ser um instante de ver tenha se tornado o momento de concluir.
Que a Psicanálise não tenha um método pedagógico a oferecer à Pedagogia, não precisa levar a conclusão de que ela nada tem a dizer à Educação. Uma série de mal entendidos estão presentes nesta passagem, dos quais cito apenas os mais relevantes: a desconsideração da diferença entre Pedagogia e Educação; a crença na predominância da questão da metodologia em Educação; o entendimento de que a relação entre Psicanálise e Educação é de aplicação.
Interessa-nos, sobretudo, destacar o efeito de silenciamento gerado pela repercussão deste livro, quanto à questão das relações entre a Psicanálise e a Educação. Tendo se tornado um clássico, é no mínimo curioso e revelador que sua própria autora nunca mais tenha se dedicado ao assunto em publicações posteriores. “Assunto encerrado”!


“Um” retorno a Freud: Lacan e o “drama dos conceitos”

A expressão retornar a Freud tornou-se emblemática do projeto lacaniano para a Psicanálise.
Em geral, ela é usada para marcar o retorno necessário a rota freudiana que se reputa ter sido abandonada ou desviada.
Sabemos que esta expressão representa, no mínimo, duas coisas extremamente imbricadas entre si: uma estratégia política e um projeto ético e teórico.
Uma estratpegia política, porque serviu a Lacan para apontar sua filiação a Freud, da qual recusou perenemente ser desvinculado. Lacan não admitia ser visto como dissidente, a semelhança do que aconteceu com Jung, Reich e outros, por isso precisava demonstrar as provas de sua filiação, bem como responder aos argumentos que lhe identificavam como fora do campo freudiano.
Seu primeiro seminário dado depois de sua não admissão na instituição psicanalítica francesa, que resolvera anexar-se a IPA, esteve fortemente marcado pela necessidade de afirmar-se freudiano. Os quatro conceitos da Psicanálise, Seminário XI (Lacan 1964) serviam para mostrar, entre outras coisas, como entendia os quatro conceitos básicos, fora dos quais não se poderia dizer inscrito no campo freudiano.
Mas para se mostrar em consonância com a proposta freudiana não bastava demonstrar o entendimento dos conceitos, era necessário, sobretudo, “interpretar” a crítica que lhe faziam.
Todos sabemos que a base desta interpretação recaiu sobre a identificação dos críticos a um dogmatismo religioso, marcado pela ironia do termo excomunhão, usado por Lacan na primeira aula deste seminário, para se referir a seu processo de exclusão da IPA.
A expressão retornar a Freud, dizíamos, significa também um projeto ético e teórico, a medida em que é com Lacan, autor da expressão, que fica destacado que não se pode entender Freud sem dessacralizá-lo, sem utilizar com ele, na leitura de sua obra, o próprio princípio tão evidenciado pela psicanálise de que o homem afeta a obra. Fato que implica em levar em consideração o sujeito Freud, seus impasses e conflitos.
Retornar a Freud visava, sobretudo, criar uma condição para poder superá-lo transferencialmente, sem ficar condenado a repeti-lo gargarejicamente, imitá-lo,  recaindo num inevitável dogmatismo conservador.
Retornar não é o mesmo que regredir, nem repetir. De modo algum pode ser reduzido a uma mera instalação de uma outra posição, mais verdadeira ou fiel que aquela que se desviou. Esta expressão pretende marcar, prioritariamente, uma leitura libertadora, daquela liberdade que vem quando podemos fazer alguma coisa com aquilo que recebemos de nossos pais. Mas só se pode fazer algo próprio quando se elaborou a herança recebida, de modo a não sucumbir na mera repetição dela.
Neste sentido, a crença de ser mais freudiano que os outros não passa de um subproduto indesejado da tentativa de retornar a Freud, uma adesão sintomática ao texto dele, o que bem parece ficar demonstrado pela prática constante do anátema (isso não é Psicanálise) no meio analítico, que não indica outra coisa que a disputa pelo lugar do filho dileto do pai.
 A própria idéia de desvio, tantas vezes aludida por vários lacanianos acerca dos pós-freudianos, merece ser relativizada. Um desvio, desde Freud, não pode ser reduzido a uma distorção aleatória, fruto de uma dificuldade particular de entendimento. Não é erro é equivocação e, portanto, é preciso considerar sua necessária vinculação a uma conveniência sintomática.
A instalação das várias derivações da teoria freudiana, nas mais variadas partes do mundo em que ela se instalou, incluída a lacaniana na França, não podem ser lidas sem levar em conta em qual dramática está enraizado o sujeito que a formulou.

“E, de fato, a psicanálise acabou se diversificando segundo as transformações da subjetividade moderna (o cúmulo, aliás, seria conceber esta plasticidade da psicanálise como desvios de alguma reta doutrina quando ela segue as exigências dos sujeitos que nela confiam).
Não é de estranhar que a psicanálise norte-americana, por exemplo, encontre o essencial do sofrimento no drama narcisista, em que o sujeito sofre de ser para si mesmo um enigma que só o olhar dos outros pode resolver (....)
Do mesmo jeito, não surpreende que o sujeito europeu lide com os problemas de quem, aos 50 anos, mal saiu de casa: reminiscências que de fato são embaraçosas presenças. Justamente logo na Europa, a psicanálise descobriu com Lacan que o sujeito sofria, antes de mais nada, de seu apego ao ser que o passado lhe fornecia” (Calligaris, in Souza, 1999, pp. 22-23)

É por isso que a expressão retorno a Freud melhor ficaria representada se a escrevêssemos anexando o artigo, Um retorno a Freud, indicativo de sua dramática singular.
Com o termo de retorno a Freud, Lacan ajudou a destacar que o destino da teoria psicanalítica (mas não só dela, é importante que se diga, no fundo é o destino de todas as teorias) depende mais dos acordos transferenciais do que epistemológicos. Que o drama dos conceitos é mais decisivo do que a trama dos conceitos.
Talvez pudéssemos concordar que a história da Psicanálise, de certo modo, aproxima-se mais da história de uma família, com suas dissidências, conflitos, pactos, do que a história de qualquer outra disciplina científica.
Kuhn em sua obra: “A estrutura das revoluções científicas”  demonstra exatamente este peso dos acordos da comunidade científica na evolução ou estancamento de uma ciência.

“A observação e a experiência podem e devem restringir drasticamente a extensão das crenças admissíveis, porque de outro modo não haveria ciência. Mas não podem por si só determinar um conjunto específico de semelhantes crenças. Um elemento aparentemente arbitrário, composto de acidentes pessoais e históricos, é sempre um ingrediente formador das crenças esposadas por uma comunidade científica específica numa determinada época.” (Khun 2007, p.23)

“O estudo dos paradigmas,(....) é o que prepara basicamente o estudante para ser membro da comunidade científica determinada da qual fará parte mais tarde” (idem, p.30)

Freud (1914), por sua vez, também parecia estar, de um certo modo, advertido da questão, e resulta interessante observar o encaminhamento que ele dá a questão em seu texto: “A História do movimento psicanalítico”, no qual diz:

“Embora de muito tempo pra cá eu tenha deixado de ser o único psicanalista existente, acho justo continuar afirmando que ainda hoje ninguém pode saber melhor do que eu o que é a Psicanálise, em que ela difere de outras formas de investigação da vida mental, o que deve precisamente ser denominado de psicanálise e o que seria melhor chamar de outro nome qualquer.” (Freud 1914, p.18)

Aqui Freud, no momento em que se prepara para falar sobre as dissidências, assinala a importância de seu Nome, como referência centralizadora do corpus da teoria. Embora irá, ao longo de todo o texto explicar os conceitos fora dos quais não se pode dizer dentro do campo psicanalítico, não deixa de marcar que é seu Nome, em última instância, a referência mestra ou unificadora da teoria.
Examinar como se apóiam, no legado de Freud, as mais diversas construções teóricas, implica em considerar em qual lugar transferencial ele foi colocado, com que questões e imersos em qual dramática se dirigiram até ele.
De novo com Lacan, pudemos ver a diferença que faz ir a um Freud tido como o mestre morto, ou ir a ele como o pensador vivo.
Se Freud fica santificado (transferência hagiográfica), então resulta difícil não lê-lo como detendo uma verdade inabalável, tal como salienta Cifali

“Compreender que Freud não fala sempre do lugar da teoria lhe restitui, beneficamente, uma dimensão humana e cria um intervalo vantajoso entre suas palavras e o que seria, de repente, um ditado psicanalítico. Existe, sem dúvida, outra coisa a inventar, muito mais do que se revestir das plumas de um papagaio e crer que uma fidelidade passa necessariamente por um: “Ele disse.....então....”. Há certamente uma herança a conservar, mas estaria ela alojada somente em algumas poucas frases ou determinada por sua última palavra dita a propósito da educação?” (tradução livre) (Cifali 1982, pp.18-19).

Mas se o tomamos como pensador vivo, então há coisas a inventar a partir de uma herança legada.
Neste sentido, pensar a intersecção da Psicanálise com a Educação não pode se reduzir às poucas frases ditas por Freud sobre o assunto. Partir dele, até porque foi o primeiro psicanalista a se debruçar sobre o tema, é imprescindível, sem, entretanto, fechar-se nele.
O próprio Freud reconheceu seu amadorismo na questão da Educação e comemorou o acolhimento e investimento dado a Psicanálise por educadores, em particular Pfister e sua própria filha Ana, de quem esperava que viessem valorosas contribuições.
Mais uma vez, o livro de Millot, enquanto centrado num percurso exclusivamente apoiado nas palavras de Freud e identificado como A posição da Psicanálise no assunto, aparece representando uma posição singular na transferência com Freud. Posição construída dentro de um “Freud disse....logo....”, que deixa de considerar o amadorismo dele no assunto da Educação, bem como seu modesto investimento na questão educativa em contraste com suas esperanças nesta articulação. Ver este amadorismo e o baixo investimento, confessados pelo próprio Freud, poderia ter mantido em aberto a pergunta sobre as relações da Psicanálise com a Educação, em vez de fechá-la na questão da irredutível diferença que as separa.


Psicanálise e Educação ou Psicanalisar e Educar? História e estrutura.

Na tradição aberta pela obra de Millot, sobre o tema das relações da Psicanálise com a Educação, ficou patenteada a idéia de que Freud vai se desmotivando com relação ao tema da Educação, a partir da evolução de sua teoria, das novas descobertas e reformulações conceituais que viriam tornar obsoletos conceitos anteriores.
Deste modo, um texto como o “Moral sexual ‘civilizada’ e Doença nervosa moderna” (Freud 1908), marco inicial da abordagem direta de Freud sobre a Educação, é apresentado como um fóssil da teoria, que, como tal, cumpre apenas o papel de demonstrar o que já existiu, mas foi extinto.
Tal leitura evolutiva da obra freudiana merece ser considerada com cautela, pois se é verdade que é possível reconhecer giros na teoria psicanalítica e que esse reconhecimento é fundamental para não fazer coexistir termos que não se coadunam, é verdade também que esses giros não se dão sem que a nova posição conserve elementos da posição anterior.
A expressão além de (além do princípio do prazer) usada por Freud, ou mais ainda (para marcar, nos expressando apressadamente, que além do Édipo, do desejo, portanto, tem o gozo) usada por Lacan, parecem demonstrar esta estrutura de superação no interior da teoria, pela qual a nova posição se desdobra incluindo e modificando a anterior.
Mesmo a clássica superação da teoria da sedução, enquanto abordagem centrada num suposto assédio real feito pelo pai à filha, pela teoria da fantasia, que incluía o peso da imaginação infantil na instalação do traumático, pode ser revista a luz da própria transformação que o conceito de sedução tem após a formulação da noção de fantasia.
Se entendermos como sedução, não mais o comportamento específico de bolinagem da criança, mas, antes, o assédio do desejo parental sobre o psiquismo infantil, então temos que a idéia de sedução é reincorporada com acréscimos a nova posição paradigmática.
A revolução conceitual é re-evolução, volta-se a um lugar para evoluir, lugar este que não deixará de estar presente, de algum modo, na posição seguinte.
Num texto em que articula a etiologia das neuroses com uma crítica ao excesso de uma educação moral rígida, que censura, especialmente para as mulheres, qualquer manifestação relativa ao sexo, Freud marca sua entrada , como dizíamos, no tema da Educação.
Deste texto, precioso sobre vários aspectos, interessa-nos reter um ponto, crucial para entendermos a diferença que faz para o destino do campo da Psicanálise e Educação, se o entendemos como superado ou reincorporado a nova posição paradigmática. O ponto é o da articulação entre história e estrutura.
Freud desenvolve ali uma articulação, segundo uma política malthusianista, entre a necessidade social de controle de natalidade, dado os problemas sociais que acarreta o desregrado crescimento populacional, e o uso de uma moral sexual rígida, destinada a controlar o comportamento sexual na pretensão do referido controle.
Estava em jogo ainda, para Freud, a diferença entre neuroses atuais e psiconeuroses de defesa, como distinção importante para compreender a etiologia da neurose. Distinção que, como sabemos, será superada por ele em seguida, entendendo que mesmo um ingrediente atual não é capaz sozinho, sem ligar-se a algo do passado, de desenvolver um sintoma neurótico.
Foi mesmo em torno deste texto, fundamentalmente, que se dará a ruptura de Reich com Freud, alegando que este último recuara diante do impacto social de sua descoberta. Enquanto Reich seguiria considerando o peso de uma política específica na instalação da neurose, marcada pela condenação do comportamento sexual livre, o que lhe renderia uma clara inclinação para a discussão das políticas educacionais, Freud, por sua vez, caminhava na direção de compreender que em qualquer política em questão a sexualidade seria conflituosa, uma vez que ela é estruturalmente conflituosa.
Desta posição de Freud decorrem, no interior do campo analítico, duas interpretações distintas, que vão gerar dois destinos distintos para a questão da articulação entre história e estrutura.
A primeira, fundada numa maior ênfase na estrutura, com o conseqüente desapego às questões históricas, entendidas como menos relevantes, já que não determinam o conflito neurótico.
A segunda, que admite que a história, como uma contingência, tem um peso decisivo na instalação da neurose, e que o fato de que este elemento contingente não seja suficiente sem seu engate nas determinações da estrutura, não o desqualifica nem o torna irrelevante na análise.
Poder-se-ia dizer que a primeira interpretação não passa de um equívoco de compreensão, já que todo o ensino lacaniano, por exemplo, parece estar comprometido com a localização exata do valor do elemento contingencial e não em sua supressão.
De fato, foi Lacan (apud Soller,2005) que disse que “não há universal que não se reduza ao possível” (tradução livre), demonstrando, claramente, que o universal da estrutura não pode se dar senão em uma contingência específica. Não há estrutura em abstrato e caso houvesse “não seria possível combatê-la”, tal como “não se pode combater nada in absentia ou in efígie”.
Mas não poderíamos conjecturar, que a freqüência com que tem aparecido produções no interior do campo analítico, mais ou menos com o mote de “A Psicanálise Hoje”, indica um modo exatamente de denegar esta articulação?
Como em toda denegação, afirma-se para negar melhor, quer dizer, se a Psicanálise é sempre do hoje, afinal não se analisa nem o nem no passado, para quê ressaltar sua referência à atualidade? Talvez para denegar a tendência dos psicanalistas a regredir sempre aos mesmos temas, ou, ainda, para elaborá-la melhor , talvez.
No campo da Psicanálise e Educação a reincidência de temas, mais ou menos com o mote: Psicanalisar e Educar, tendidos a referendar a diferença entre as duas posições discursivas, realizados sem nenhuma referência à História, somente ao estrutural desta relação, demonstram um afastamento da análise do peso da contingência.
Esquecem que a análise é sempre do Um, quer dizer, entre outras coisas, que ela não pode ser do alguém, assim dito para evidenciar o abstrato desta posição. Mesmo que esse Um seja uma obra, como fez Freud com Schreber, por exemplo, ou Lacan com Joyce e que tenham buscado aí encontrar universais.
Ser do Um, ou do caso, para melhor dizermos, implica fazer predominar a clínica (sempre do caso) sobre a Ciência (sempre do geral, para não confundir com universal).
Que Freud tenha se referido a Educação que era a de sua época, não é senão uma referência ao Um, ainda que ele tenha podido encontrar aí universais, que lhe permitiriam transcender a Educação de seu tempo para postular algo sobre o Educar, posição discursiva, estrutural.
Embora muitas coisas deste texto tenham sido superadas pelo paradigma posterior da teoria, o peso do elemento contingencial na análise, não parece estar entre elas.
Se assim o fizermos, a análise do psicanalisar e educar corre o risco de ter o mesmo destino da psicologização da educação, ou seja, o de gerar modos abstratos de compreensão d”O” aluno e d”O” professor.
Em todo caso, é uma oportunidade para percebermos que o fato de Freud ou Lacan terem dito, não garante que a coisa tenha sido compreendida.
O efeito da obra de Millot no campo da Psicanálise e Educação parece ter sido o de consolidar o desejo de marcar uma diferença entre o psicanalisar e o educar, com a conseqüente desconsideração da possibilidade de análise de Uma educação, específica de um tempo e conjuntura política.

A colonização pedagógica da Psicanálise

Com quais questões parte Millot a Freud? Todo seu percurso neste texto parece estar referenciado pelas perguntas: Há um Tratado de Psicanálise sobre a Educação?  A Psicanálise teria uma Metodologia a oferecer a Pedagogia?
Para ambas ela concluirá com a resposta não, mas podemos nos perguntar sobre a natureza do campo de suas perguntas, segundo a perspectiva que trabalhávamos acima, destacando a questão da dramática dos conceitos e da questão transferencial com a palavra de Freud.
Estranha, de saída, a presença de uma pergunta sobre um tratado, noção que a própria Psicanálise estaria disposta a contestar.
Um tratado supõe uma posição consolidada sobre um assunto qualquer, sobre a qual até permite-se que se acrescente ainda algo mais, mas sem que se modifiquem as premissas fundamentais desta posição. Assim sendo, um tratado é uma noção que tende muito mais na direção de uma estrutura acabada, ou semi acabada, e que serve para dar referência sobre uma determinada posição teórica.
A Psicanálise é um work in progress, quer dizer, um trabalho que não cessa de se interrogar sobre sua adequação conceitual ao desafio que a experiência clínica lhe coloca. Muito embora isto não queira dizer que toda a teoria se modifique a cada instante, esta dinâmica indica uma maior aproximação na direção da incompletude, do inacabamento, enquanto estrutura da teoria.
Poder-se-ia dizer que o inacabamento é uma questão de qualquer disciplina científica, afinal todas estão sujeitas à refutação e modificação, mas esta característica de não-toda, no caso da Psicanálise, é mais do que uma característica entre outras, é sua própria vocação, enquanto define uma soberania da clínica sobre a teoria.
A Psicanálise evita a idéia de tratado porque defende a idéia de uma tratando, que vale para sua própria teorização, ou mesmo para aquela que ela pode produzir quando se inclina para um outro campo de experiência, por exemplo, a Educação.
Além disso, seria preciso perguntar porque que o fato de que não encontramos em Freud uma sólida posição a respeito da Educação, deve nos levar a concluir que A Psicanálise não tem, e nem deve se buscar em outro lugar tê-la, uma sólida posição acerca da Educação.
A pergunta que orienta a busca em Freud de um tratado sobre a Educação, só poderia encontrar uma resposta negativa, seja porque Freud, alegando seu despreparo para o assunto, preferiu não concluir, seja porque toda e qualquer debruçar-se da Psicanálise com relação a Educação buscaria ser deliberadamente não conclusivo.
O mesmo ocorre com a pergunta sobre a metodologia. Que a Psicanálise não tenha uma metodologia a oferecer a Pedagogia poderia se concluir diretamente do fato de que mesmo para ela mesma, a questão de uma metodologia, enquanto estratégia geral, válida para todos os casos, não deve ser colocada. Ainda que haja uma direção de trabalho que pode ser descrita em termos universais, sua aplicação jamais se encaminha sem importar a singularidade de cada situação.
Para a Psicanálise, a idéia de Técnica (e aqui passo apressadamente pelas diferenças entre técnica e método porque a compreensão desta diferença é irrelevante para este estudo e também porque ela é negligenciada pela Pedagogia, em geral.) é impertinente, exatamente porque em seu procedimento a psicanálise se ocupa de destacar a singularidade acima da generalidade. É isto que possibilitou Freud dizer que a Psicanálise tem que ser reinventada a cada vez, com cada paciente.  
O que queremos ressaltar aqui é que as perguntas com as quais Millot se dirige ao texto freudiano em busca de respostas, são perguntas que não se inspiram no campo psicanalítico, propriamente dito. Onde se inspirariam, então?
Tanto a noção de tratado, quanto a da ênfase no metodológico, cada uma a seu modo, constituem questões fortes do campo pedagógico, tal como ele se configura nos dias de hoje.
A do tratado, pela busca constante da perspectiva enciclopédica, figura emblemática do projeto iluminista, que talvez tenha na Pedagogia, dado o gosto deste campo pelas múltiplas referências às chamadas Ciências da Educação, que viriam para iluminar o ato educativo, senão o maior, pelo menos um de seus maiores representantes.
A busca de um tratado interdisciplinar para entender a Educação é um projeto forte da Pedagogia hegemônica.
A pergunta sobre a metodologia, por sua vez, marca também a predominância do caráter Técnico (escrito assim com maiúscula para indicar que se trata de uma perspectiva que põe em primeiro plano a intervenção, em detrimento da investigação) no universo pedagógico, tão facilmente constatável nos dias de hoje.
Assim, referenciada por estas duas preocupações, ainda que seja para responder não a elas,  a Psicanálise figuraria como mais uma disciplina entre outras a compartilhar o sonho iluminista e capitalista do empreendimento pedagógico.
Temos, então, uma colonização pedagógica da Psicanálise, que propicia, como não poderia deixar de ser, a pasteurização desta última.
O exemplo deveria nos deixar advertido do risco que consiste o amadorismo do psicanalista, neste caso nas questões da Educação, mas sem desestimular psicanalistas e educadores a explorar este fértil campo que se anuncia para esta intersecção.
A regra para este trabalho, o fio de Ariadne portanto,  parece ser a mesma que vale para o trabalho da teorização psicanalítica em geral, a saber: o rigor conceitual aliado a imprescindível humildade em reconhecer que minha eventual ignorância  particular não deve ser erigida em  princípio geral da teoria. Neste sentido dizer: UM retorno a Freud é primeiramente a admissão de que não posso jamais escapar de meus limites singulares.
 



Notas

1 Termo destacado por Renato Mezan em seu livro “Freud: A Trama dos conceitos” no qual diferencia o projeto de seu percurso por Freud da perspectiva lacaniana:
“O presente livro se funda sobre uma aposta:a de que é possível uma leitura pelo ângulo dos conceitos, isto é, uma abordagem que privilegia o aspecto sistemático da obra freudiana(....) retomando uma observação de Lacan (da qual só tive conhecimento depois da conclusão do trabalho) cabe notar que “ não se trata, para nós, de sincronizar as diferentes etapas do pensamento de  Freud, nem mesmo de fazê-las concordar entre si. Trata-se de ver a qual dificuldade, única e constante, respondia o progresso deste pensamento, feito das contradições de suas etapas” (Lacan, Lê moi dans la Théorie de Freud et dans la Technique de la psychanalyse, aris Seuil, 1978, p.178)




    Referências bibliográficas

CALLIGARIS,C. “A psicanálise e o sujeito colonial”, in:SOUSA,E (org.), Psicanálise e colonização: Leituras do sintoma social na Brasil. Porto Alegre, Artes e Ofícios, 1999.
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