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competencia_e_qualidadeEducação: competência e qualidade
Nílson José Machado

Existe um aparente consenso com relação ao fato de que somente uma Educação de qualidade forma pessoas competentes. Não é tão fácil, no entanto, um acordo sobre a ideia de pessoa a ser formada, nem sobre o significado da qualidade no terreno educacional, ou mesmo sobre as dimensões fundamentais das competências a serem desenvolvidas.

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Revista Educação - LACAN - (Especial: Biblioteca do Professor)

A Revista Educação apresenta a coleção especial Biblioteca do Professor e, entre elas, está a Edição nº 9: Lacan Pensa a Educação, que teve como Coordenadora Assistente Leny Magalhães Rech, autora também deste Site (www.educaçãoonline.pro.br).

Nesta edição especial temos o seguinte sumário:

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Freud e o conhecimento e o desconhecimento de Freud
Escrito por Prof. Rinaldo Voltolini
Seg, 09 de Fevereiro de 2009 22:50
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Freud: Pensar é desejar


Freud e o conhecimento e o desconhecimento de Freud


No interior do  discurso pedagógico normalmente Freud não aparece no rol daqueles autores que trataram do assunto do conhecimento ou da inteligência. Ainda que lhe possam dar algum direito de cidadania neste assunto, afinal é possível encontrar em seus textos uma preocupação e um tratamento da questão, é sempre uma cidadania parcial, sem plenos direitos.
Pelo menos é o que se pode perceber em como ele figura no tão conhecido e insistente divórcio entre o afetivo e o cognitivo, divórcio que insiste em permanecer apesar das também insistentes tentativas de mostrar o “Mito” que esta divisão comporta. É como representante maior do “afetivo” que pretendem situar Freud.
Talvez se possa pensar que isso se deva ao fato de que Freud criou uma teoria do psiquismo na qual a questão do conhecimento e seus vários nomes: inteligência, cognição, etc.embora tenha importância capital não aparece com um destaque especial. Ou ainda, de outro lado porque esta divisão que o situa como ícone do afetivo é tributária de uma departamentalização do ser humano que para se cumprir só poderia reter de cada autor aquilo que mais fez sua fama.
Mas se quisermos compreender esta questão “freudianamente”, talvez possamos considerar que este fato nos sirva mesmo pra ilustrar o modo como ele abordou o assunto do conhecimento e da inteligência.
Ele costumava considerar que a Psicanálise não era bem aceita porque era com frequência mal “compreendida”.
 Em geral criticada por aquilo que ela não disse entendia que as razões desta incompreensão da psicanálise se deviam em grande parte, não a veracidade ou incorreção de seus pressupostos, mas a uma resistência ao “escandaloso” que estes pressupostos punham em cena. Afinal quem não se lembra do escândalo, para eleger um entre muitos, que significou para os de sua época, mas também entre nós, enunciar a existência de uma sexualidade infantil.
 Note-se que ao fazer esta consideração Freud já se encontra teorizando,no interior do campo do conhecimento e com os recursos de sua teoria se refere a um de seus elementos: a compreensão, o entendimento. Consideração esta que, aliás, reúne de maneira condensada todos os ingredientes teóricos em operação do que ele levaria em conta mais tarde sobre este assunto.
Com efeito, foi dizendo o quanto o “Mito” não cede à “Razão” que Freud estabeleceu sua démarche e constituiu seu paradigma no campo do estudo sobre o conhecimento.Afirmação que não podia senão soar escandalosa para uma sociedade e uma época orgulhosa de suas conquistas racionais e científicas
É por isto também que Freud acredita alinhar-se a outros dois revolucionários do conhecimento humano, Copérnico e Darwin, que teriam cada um, à sua medida, ferido o narcisismo dos homens ao revelar nossa pequenez ali onde nos imaginávamos grandes. O primeiro quando desaloja o homem de sua crença em habitar o centro do universo; o segundo quando demonstra que não éramos uma exceção na criação da natureza, mas parte contínua dela e o terceiro quando indica não sermos senhores nem mesmo em nossa própria casa uma vez que não estamos totalmente no comando daquilo que pensamos.
E é o mesmo Freud, um incansável operário da Razão, defensor das “luzes”, militante no combate às ilusões, que não pôde senão constatar que esta superação do mito pela razão só pode ser semi-feita, nunca completada, ou seja, que nem todo desenvolvimento da razão pode eliminar a presença do que há de mítico no cerne do pensamento humano.
Seja no plano individual com o raciocínio supersticioso, por exemplo, presente mesmo entre as pessoas mais “científicas” e racionais em seu modo de pensar, ou no coletivo, como no preconceito racial, por exemplo, que persiste apesar da convivência reiterada entre os povos, a Razão “conviveria” com o Mito numa espécie de relação paradoxal porque admite senão a paz entre eles pelo menos um “pacto de compromisso”.
Mas Freud não chega a “compreender” isto sem impasses. Como tudo em sua teoria esta conclusão também é fruto de um longo processo de “elaboração” (outro conceito de Freud com importantes ressonâncias na questão do conhecimento) , que, como tal, é feito de avanços e recuos, de muita implicação pessoal, de angústias e superações. Enfim demonstrando que um pensamento em andamento, que a atividade do conhecimento, não cessa de se relacionar com um “enigma”.
Talvez possamos nos propor um percurso pela obra de Freud atrás de sua abordagem do conhecimento partindo, justamente, num estilo bem freudiano, do marcante desconhecimento que existe em torno de sua obra, em especial no que tange ao impacto de seus pressupostos sobre a questão do conhecimento.
Começando por admitir que este desconhecimento é fruto da insistência de um mito que “preferiu” (afinal é esta a função primordial do Mito: estabelecer sentidos preferíveis mais do que induzir a pensar) pensa-lo como estando em outro campo, o afetivo, “lado-a-lado”, em paz, portanto, numa relação de “complementaridade” com os autores, estes sim, do campo do conhecimento ou da inteligência.


O primado do Eu ou Todo conhecimento é desadaptado

Em vários momentos de sua obra Freud sublinha o fato de que o ato de conhecer ocorre sobre o fundo de um “drama particular do sujeito”.
É um “pensamento afetado”(para se referir de maneira direta à relação intrínseca que via Freud entre os pensamentos e os afetos) por conflitos pessoais que chama a atenção de Freud.
Inicialmente flagrada sob forma de perturbação no curso do pensamento como no caso da amnésia nos pacientes histéricos e do pensamento ruminante, ou da dúvida incessante nos pacientes obsessivos, esta “afetação”iria depois também ser encontrada, num giro interessante, como combustível para a criação, como no caso de Leonardo da Vinci e mesmo do pequeno Hans.
De uma ponta a outra o que Freud está em vias de formular é que o pensamento não é só afetado eventualmente, como crêem os adeptos da clivagem emocional/racional, senão que não há pensamento que não seja afetado e que esta afetação não é boa nem má, em princípio, mas que ela é característica do pensamento humano.
E é neste drama particular do sujeito, arquitetado essencialmente no curso de suas primeiras experiências que o ato de conhecer terá seu papel e seu “destino”.De fato nesta forma de abordar o conhecimento a noção de destino, mais solidária de um futuro aberto ao inesperado, terá mais importância que a noção de desenvolvimento, mais tributária de um futuro no qual se desdobraria uma seqüência mais ou menos previamente determinada.
 O que se destaca é muito mais um “estilo” singular, próprio, irrepetível do trabalho de conhecer e suas vicissitudes do que um processo traçado em suas leis gerais como uma regularidade que se desdobra no tempo.
Mas na construção deste destino dizer que o pensamento é parte dos conflitos particulares de um sujeito, dizer que no estilo deste pensamento se poderá encontrar as marcas destes conflitos é admitir que ele se molda menos conforme o objeto, cujos atributos ele busca apreender, do que pelos préstimos subjetivos (no que tange aos conflitos particulares) que ele traz ao sujeito que aprende.
Aqui já estaríamos em condições de reter o original da abordagem de Freud na questão do conhecimento: este não serve para adaptarmo-nos a uma realidade alheia a nós mesmos, existente como tal, senão que o conhecimento serve para adaptar esta realidade, não sem limitações, ao que queremos fazer dela.
Com efeito, é o que Freud formula nos termos de uma dialética que ele escreve com os conceitos de princípio do prazer e princípio da realidade.
Em termos gerais o que se pretende escrever com esta dialética é o que chamamos de primado do Eu sobre o objeto.
A apreensão do mundo se construiria obedecendo dois tempos (lógicos e não cronológicos, pois não são tempos que se inscrevem em uma gênese nem possuem um fim determinado) que talvez pudéssemos sintetizar assim: antes de tendermos  para o mundo é pra fazer o mundo tender para nós que operamos.
Esta dialética operaria desde o momento de sua instalação até o fim da vida sem ser superada por nenhum desenvolvimento posterior dos atributos do conhecimento.
Freud vai encontrar seus exemplos no cogitar infantil, na pesquisa que fazem as crianças sobre a atividade sexual, por exemplo, mas também, de maneira equivalente, no modo de pensar adulto mesmo em suas formas mais sofisticadas como no caso do pensamento científico.
Ou por acaso não é verdade que a história da ciência demonstra que a permanência ou a queda de certos paradigmas não dependeu somente das condições que as próprias regras do conhecimento dos objetos estabelecia, mas também e fundamentalmente da importância que tais paradigmas tinham sobre os modos de organizar a vida entre os homens.
Por acaso isto não se provaria pela resistência que os newtonianos mantiveram em relação às teses de Einstein mesmo quando os efeitos evidentes de suas teorias estavam instalados já num nível prático?; o sacrifício de Galileu que se rendeu às evidências do que sua observação do Firmamento lhe fornecia e que contrastavam com a crença na época de que habitávamos o centro do universo?; a “crença” de que a drogadicção é fruto de uma herança genética mesmo quando se mostra que enquanto vício individual, buscado para se isolar em meio as fantasias alucinatórias, ela não existe senão com a chegada do individualismo inerente ao capitalismo do qual o uso da droga como adicção é tributária?
A lista dos exemplos poderia de estender ainda mais, mas os exemplos aqui evocados bastam para demonstrar que há no interior do cogitar humano a presença de uma “razão de conveniência”.Uma conveniência cujas balizas, no registro em que Freud a apreende,são inconscientes.
Inconsciente, entretanto, pressupõe “não-sabida”, mas nunca “não-desejada ou não-intencional “, como foi, aliás, o modo como o senso-comum preferiu reter a idéia do inconsciente em Freud.
O compromisso e a intenção desta conveniência seria o de proteger o sujeito de suas aflições, de seus conflitos particulares, de seu desprazer. É assim que princípio do Prazer e princípio da realidade não são termos que se opõem como um dilema, mas que se articulam como uma dialética na qual o princípio da realidade está á serviço do princípio do prazer.
Freud observara que se uma fantasia encontra um obstáculo em alguma realidade é a realidade que será sacrificada, exceto quando por sucessivas vezes o sujeito é confrontado com isto que se opõe a seu modo conveniente de pensar, desarmado em seus subterfúgios para manter-se nesta conveniência, sendo aí, então, levado a “elaborar”.
Quando as crianças, apesar do esclarecimento que eventualmente conseguem obter dos adultos que se predispõem a informa-las, insistem em permanecer apegadas às suas próprias conclusões sobre a atividade sexual, tiradas de suas próprias observações, não fazem senão resistir a elaborar o que mais cedo ou mais tarde serão, de todo modo, forçadas a fazer.
Mas esta elaboração nuca é “toda-feita”, de modo que conservamos para nossa vida sexual adulta, como um “fantasma” ( termo que marca bem a idéia de algo que deveria ter morrido, talvez pela ação da razão, mas permanece ativo e inconscientemente fantasmatizando a vida do sujeito )uma aura daquilo que pensamos sobre este assunto quando crianças. Em outros termos a permanência do Mito apesar do trabalho da Razão.
Se Freud indica a todo aquele que pretende ser analista que faça sua própria análise é por perceber que a primeira tendência de qualquer um que se coloque nesta posição é a de ver seus pacientes a “sua imagem e semelhança”.
Enfim, o primado do Eu sobre o objeto implica considerar que antes de percebermos os atributos do objeto é como perfil que o abordamos. Um perfil que atribuímos a ele e que não é senão o reflexo de nossa própria imagem.
Por acaso isto não teria a ver, por exemplo, com a presença do antropomorfismo e do animismo, traços mais evidentes no pensamento infantil,e que nos levam a projetar e atribuir a objetos e seres características humanas?
O que Freud vai buscar no Mito de Narciso para configurar o conceito de narcisismo, característica estrutural do humano, é justamente o peso que tem para nossa existência o enamoramento de nossa própria imagem.
Lembremos que para Narciso isso representava uma condenação; era como maldição que ele deveria permanecer “para sempre” (o que indica que o narcisismo não é uma fase) agarrado a si mesmo, sem poder interessar-se por nada que não fosse sua própria imagem. E era com seu espelhamento, com seu “Reflexo” que ele estava condenado a se relacionar.
Seria abusivo perceber aí a relação direta entre isso e uma das características distintivas da Razão humana : a “Reflexão”?
De fato, a capacidade de refletir, ou seja, pensar sobre o que estou pensando, característica exclusivamente humana, não conserva por acaso uma proximidade etimológica com o “reflexo” que encontramos no espelho.Há, antes, entre ambos, uma identidade de estrutura. Afinal pensar sobre o que estou pensando implica a possibilidade de tomar em termos “virtuais” uma idéia, de partir de sua imagem para poder operar sobre ela.
No momento que refletimos, portanto, exercemos uma capacidade de abandonar a realidade concreta, da qual tiramos os olhos para volta-los em “contemplação” à nossa própria idéia.
Mas marcar o primado do Eu sobre o objeto é também destacar um sentido presente na etimologia da palavra inteligência que se perdera com o passar dos tempos. Inteligência é  Int “elegere” que marca que o trabalho primeiro e crucial da inteligência é “eleger” um objeto ou escolher a forma com a qual ele será apreendido.
É aqui que se evidencia a razão de conveniência. É nesta eleição que um objeto pode, por exemplo, ser elevado, super potencializado em seus atributos (como no caso do fetiche ), ou evitado, desconhecido, ignorado, ou incompreensível (como no caso das inibições).
É porque há eleição que não podemos estar ao abrigo do que Freud chamou de “Império das preferências” intrínseco a atividade do conhecer.
Império este, marca da condição desejante do humano, que parece ser mais determinante no destino da inteligência humana do que uma eventual capacidade do pensamento de se adaptar aos atributos do objeto. Capacidade esta que permanece podendo ser questionada em tudo aquilo que o homem, à diferença dos animais em geral, mostra em seu comportamento como tendendo não a adaptação, mas sim ao gozo.
Em Freud há uma leitura do humano como essencialmente inadaptado, como colocando os fins do prazer sempre acima dos fins da sobrevivência.


O Primado do Falo ou o Enigma incessante

Ao lado da Reflexão, outra característica distintiva da Razão humana, também encontrada de maneira equivalente nas crianças e no pensamento científico, é a capacidade de “Interrogação”.
De fato se podemos encontrar em alguns animais a capacidade de raciocinar diante de um problema que se lhes apresente, nunca nos foi possível observar algum deles criando seu próprio problema. Estariam, portanto, em termos cognitivos, restritos a reagir aquilo que a realidade concreta os faz defrontar.
O ser humano, ao contrário, prima por interrogar seu meio, sua existência, seus problemas concretos, seu futuro, seu passado, seu presente, etc. É uma interrogação que não espera, mas que se antecipa colocando em jogo a dimensão da “dúvida”.
A angústia da dúvida se alivia, mas só provisoriamente, com a solução, pois as novas respostas não tardarão a criar novos “Enigmas”.
De uma certa forma nunca abandonamos a “fase dos porquês”, talvez porque mais uma vez devêssemos considerar que não se trata de uma fase e, portanto, com fim determinado, mas de novo um elemento da estrutura da Razão humana.
Por quê não cessamos a investigação tão logo encontremos as respostas adequadas a primeira pergunta e nos “equilibramos” com o conhecimento adquirido? Se assim vivíamos até então, com os recursos que dispúnhamos, porque insistimos insaciavelmente, feito as crianças em seus porquês, a perseguir de novo a resposta para o que está enigmático?
Certamente aqui também parece que nos deparamos com a pendência para a desadaptação do ser humano.
O que aqui se insinua seria muito mais a tendência a “dominar” do que de se adaptar.
Com efeito, a maior parte do que descobrimos com a ciência nos serve para dominar as forças da Natureza não tanto naquilo em que elas ameaçariam nossa sobrevivência, mas, fundamentalmente, para que elas se comportem do modo como desejamos.
Evidentemente que a tarefa da sobrevivência não está fora deste itinerário intelectual, mas se ela fosse o leitmotiv da Razão humana, não teríamos chegado a criar, como salienta Freud, através do cogitar humano, as condições de nossa própria exterminação É menos para sobreviver do que para dominar que pensamos.
Talvez o melhor exemplo disso seja a chamada “Conquista do espaço”,
Ainda que pudéssemos pensar que a ida do homem à Lua tivesse a intenção de construir as condições de um exílio caso nos fosse necessário, no futuro, garantirmos nossa sobrevivência no espaço se na Terra ela estivesse ameaçada, o termo “Conquista”, consagrado na época, parece demonstrar melhor o caráter dominador deste projeto.
De fato, se pisar na Lua significou “um grande passo para a humanidade” foi na medida em que representou para todos nós uma ampliação do limite para nossa liberdade em relação aos desígnios da criação.
O homem pode agora olhar para o firmamento e contemplar mais um sinal de seu poder quiçá, em perspectiva, igualável ao de Deus.
O conhecimento humano não parece ter limites em seu impulso dominador.
O homem pretende, digamos, impedir que o “acaso” exista. É bom que tudo tenha causa, pois assim poderíamos interferir e controlar.
A morte, antes uma fatalidade do destino, ou vontade de Deus, é hoje, pela intervenção da razão científica, um efeito de certos processos cujas causas cada vez mais se pretende controlar.
A criança, num certo ponto de sua constituição, começa a interrogar. Não mais se limita a lidar com aquilo que lhe apresentam, a repetir conhecimentos que lhe impuseram, mas inicia “autonomamente” sua investigação, suas perguntas.
Para Freud, o combustível desta interrogação e, ao mesmo tempo aquilo que justifica para onde ela se dirige, é a constatação de que a “origem de sua vida” (enigma que persistirá sendo uma questão eterna para o ser humano) não foi produto de sua vontade ou de sua escolha, mas antes do desejo de alguém.
Seria por isso que as perguntas da criança se dirigem para a relação sexual, ato de que ela de algum modo já desconfia existir e terreno onde ela supõe poder responder o enigma do desejo que engendrou sua existência.
De qualquer modo o fato é que a criança formula aí suas questões que às vezes torna públicas outras vezes não, tendo antes despendido suas energias em construir sua própria resposta que ela formula sob forma de uma “teoria sexual infantil”.
O característico destas teorias, na verdade, aquilo que as universaliza apesar do sem número de versões que podemos encontrar na boca das crianças, é a “negação” presente nelas da existência do espermatozóide e do óvulo.
De fato tudo se passa nestas teorias como se as crianças viessem ao mundo sem relação sexual, ou, pelo menos, sem uma relação sexual que envolvesse os corpos do casal e a penetração.
Temos aí duas questões fundamentais a observar :a primeira diz respeito a como as crianças chegam a estas teorias e a segunda a para que elas servem.
Desconfiada de que não lhe foi contado tudo a criança se lança a investigar, só que só pode fazer isto com os recursos que dispõe.
Se suas teorias concebem a fecundação como produto da semente “ingerida” e crescida na barriga , ou ainda, que como tal esta criança que ali se desenvolve não terá como sair senão da forma como tudo que entra na barriga sai, ou seja, pelo ânus, é porque a experiência da criança “com seu próprio corpo” modela sua teorização.
Com efeito, é com sua oralidade dominante que a criança constrói esta teoria.
No limite somos levados por Freud a compreender como a “objetalidade é a base da objetividade”.
Estes objetos, inicialmente corporais, que Freud destacou como sendo: a boca, o ânus e os órgãos genitais não cessam de fornecer o molde e no caso das crianças também o conteúdo de suas formulações.
O que Freud está dizendo, bem entendido, é que não pensamos com o cérebro, mas com o corpo todo, ou melhor, que o corpo participa da atividade de pensar.
Se as crianças não incluem em suas teorias o espermatozóide e o óvulo é, em parte, porquê não possuem a experiência disso em sua própria erotização do corpo.
Mas é também mais que isso. É, aliás, um outro ponto que parece ser mais decisivo e, ao mesmo tempo, mais esclarecedor.
Quando o pequeno pesquisador olha para a mãe ou para uma menina e vê nelas um pênis, ou mesmo a pequena pesquisadora que na observação de sua vagina levanta ali a hipótese de que seu pênis ainda vai crescer, não parece ser só a falta de experiência com este órgão a responsável por tamanho excesso de imaginação.
A falta de experiência também tem aí seu papel, uma vez que para eles, nesta idade, os órgãos genitais não servem senão para a função fisiológica de urinar, mas que começam a figurar , e nisto reside seu desconforto, como parte do aparelho sexual humano, de um aparelho do qual eles começam a se ocupar, mas que mesmo assim não podem ainda fazer dele a experiência.
As hipóteses transformadas em teorias conjugam para eles, ao mesmo tempo duas funções: primeira, o uso de seus próprios recursos para pensar; segunda, a utilização do “pensar para negar” a realidade.
De fato, é por razões, de novo, de conveniência que a criança constrói suas teorias. Ela está amplamente interessada, diz-nos Freud, em impedir a ocorrência de um acontecimento desagradável: o nascimento de uma outra criança. Desagradável não tanto pela conseqüência prática que produz, ou seja, a vinda de um irmãozinho, que as vezes é até relativamente comemorada, mas, antes, pela confirmação de que sua vontade não é reguladora do movimento do mundo.
Por esta razão as condições de elaboração das teorias sexuais infantis, incluem, entre seus ingredientes principais, as necessidades narcísicas da criança que teoriza.
Ela tenta, sobretudo, dominar a realidade com sua teorização e se busca esclarecer-se sobre ela não é senão com fins pragmáticos.
Na verdade o que estamos em vias aqui de sublinhar é justamente o quanto o conhecimento pode caminhar na direção de um não se esclarecer, caso o esclarecimento entre em contradição com os fins narcísicos para os quais eles não deixam de servir e que, por fim, o moldam.
Quando não interessa à criança perceber a diferença sexual, pois ela traria consigo a questão da castração, ela simplesmente teoriza de modo a apagar esta diferença de seu horizonte. A psicanálise abre a possibilidade de pensarmos a ignorância como podendo ter eventualmente uma “função”.
Normalmente entendida como “disfunção”, como sinal de que alguma coisa não vai bem, ou ainda, como sinal de uma imaturidade que poderá ser superada, ela aparece aqui como podendo cumprir um papel para os interesses do próprio sujeito e que como tal tende a preservar-se para além de qualquer esclarecimento.
Não seria então a finalidade última da Razão esclarecer-se sobre a realidade, mas, sobretudo, domina-la.
Temos então que o conhecimento é nutrido fundamentalmente pelo impulso dominador
O fato é que se isto marca o inicio da autonomia intelectual da criança em relação ao que lhe informam, marca também o início da autonomia da Razão em relação à experiência concreta.
Sem dúvida, se a criança pode falar e gerar um conceito em cima do que não viu e não viveu, como, por exemplo, crer que se as meninas não tem pênis é porque foram vítimas de uma violência que as privou dele, é porque a Razão já deu provas de que trabalha em termos “simbólicos” e dispensa a realidade concreta.
É esta capacidade de simbolizar, que para Freud é a grande diferença humana, uma vez que nos daria uma autonomia em relação à realidade concreta, que encontra sua melhor representação na figura do Falo.
O Falo é aquilo que como tal não tem existência enquanto objeto, ninguém nunca viu o Falo, ninguém o possuiu ou o possui. Mas esta sua condição é o que lhe permite funcionar como o que simboliza o poder, justamente, na origem, o poder que temos em relação à realidade da qual já não estamos mais, agora, pelo artifício da linguagem, presos inelutavelmente.
Pois bem, o essencial na forma de Freud abordar a questão do conhecimento talvez esteja mesmo naquilo que ele demonstra ser o selo distintivo da condição humana em relação à existência animal: o simbólico.
Por conta disso ele percorreu tudo aquilo que era conseqüência da desorganização que esta dimensão impõe ao corpo em sua base instintiva em prol de uma outra organização construída sobre as bases da lei simbólica.
No caso do conhecimento a capacidade de refletir e de interrogar parecem ser os emblemas desta “liberdade”, deste poder que adquirimos, fruto de nossa condição de seres simbólicos, em relação ao determinismo da Natureza.
Liberdade e poder estes que nos colocam também diante da tarefa de saber o que fazer com eles.  


Professor Doutor Rinaldo Voltolini
Doutor em Psicologia pelo IPUSP
Professor de Psicologia e Psicanálise da FEUSP
Psicanalista
Co-editor da revista Estilos da Clínica
Membro do grupo de trabalho Psicanálise e Educação da ANPEPP
Co-autor do livro “Travessias:inclusão escolar”, Ed. Casa do Psicólogo
Co-autor do Livro “Angústia:o afeto que não engana”, Ed Mercado de letras
Autor de vários artigos científicos sobre o tema Psicanálise e Educação