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competencia_e_qualidadeEducação: competência e qualidade
Nílson José Machado

Existe um aparente consenso com relação ao fato de que somente uma Educação de qualidade forma pessoas competentes. Não é tão fácil, no entanto, um acordo sobre a ideia de pessoa a ser formada, nem sobre o significado da qualidade no terreno educacional, ou mesmo sobre as dimensões fundamentais das competências a serem desenvolvidas.

(Saiba+)

 

 


 

 


Revista Educação - LACAN - (Especial: Biblioteca do Professor)

A Revista Educação apresenta a coleção especial Biblioteca do Professor e, entre elas, está a Edição nº 9: Lacan Pensa a Educação, que teve como Coordenadora Assistente Leny Magalhães Rech, autora também deste Site (www.educaçãoonline.pro.br).

Nesta edição especial temos o seguinte sumário:

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O Discurso do Capitalista a Psicanálise e a Educação
Escrito por Prof. Rinaldo Voltolini
Seg, 09 de Fevereiro de 2009 22:55
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O discurso do capitalista, a psicanálise e a educação
   



 Rinaldo Voltolini, Psicanalista, Professor Doutor em Psicologia pelo IPUSP, Professor de Psicanálise e Psicologia da FEUSP, co-editor da revista Estilos da Clínica.


Não resulta imediatamente evidente uma articulação que se proponha a reunir estes três termos. Na verdade dois, uma vez que o termo discurso associado à noção de Capitalismo já indica a presença inegável da Psicanálise na discussão.
Evidentemente que em princípio ela se justifica apenas por uma escolha, arbitrária como qualquer escolha, que parte, neste caso, do desejo de continuar, dentro de uma tradição inaugurada por Freud, a interrogar o campo da Educação a partir do que a Psicanálise nos ensinou em sua própria experiência.
Mas se olhamos mais de perto vemos que os termos desta articulação só podem parecer híbridos se não levarmos em conta que a Psicanálise e a Educação, que apesar de suas diferenças específicas são práticas-parentes (parentesco reconhecido por Freud em seu aforisma sobre os três ofícios impossíveis: o educar, o governar e o psicanalisar) na medida em que trabalham essencialmente a partir da palavra e que tratam do destino de sujeitos, tendem a partilhar questões comuns, produzidas por uma inserção mais ou menos comum e pelo impacto recebido da política de uma dada época, em nosso caso, a Capitalista.
Por acaso não seria uma evidência disso o recente crescimento em ambos os campos, o clínico e o educacional de uma proposta chamada cognitivista que viria restaurar em outros termos a velha polêmica sobre a autonomia do Ego?
Seja na afirmação de que alguém pode pensar sobre seu próprio sintoma e planejar como alterá-lo, seja na proposição de que entre o sujeito que pensa e o objeto pensado não há nada além das regras da lógica a serem dominadas, é a velha idéia de mestria que reaparece como hegemônica em tais propostas de trabalho.
Depois também porque na noção de Discurso do Capitalista, cunhada por Lacan, talvez encontremos um importante intermediário para a discussão entre a Psicanálise e a Educação.
Com a contemporaneidade cresceu e se desenvolveu um entendimento de que a Educação é uma atividade eminentemente política, uma vez que é através dela que se calcula e se prepara em bom termo os indivíduos que cada sociedade precisa para perenizar seu status-quo.
O mesmo pensamento que apontaria esta evidência, notadamente, o pensamento de origem marxista no seio do qual se cunhou a força do conceito de Capitalismo, estabeleceria o programa mínimo para toda Educação que se pretenda revolucionária. O método seria o da conscientização sobre o que está oculto e enquanto tal, neste ocultamento encontra a força para determinar o destino de uma sociedade que a ele sucumbe por não conhecer as forças que o guiam. De fato, um tal projeto não poderia deixar de considerar estratégico o campo educativo, no qual ele desembocaria de todo modo por portar em si mesmo um certo projeto educativo: o de transformar o homem através do conhecimento para que este transforme o mundo em um mundo melhor.
Por esta razão encontramos uma pletora de trabalhos no campo da Educação que se encontram na via aberta por esta perspectiva teórica.
Já na Psicanálise, ao retomar este termo cunhado por Marx, Lacan recupera um ponto em relação ao qual Freud teria apenas resvalado sem aprofundar.
Com efeito, Freud não aborda Marx senão de maneira lateral, como, por exemplo, em uma de suas novas conferências introdutórias (Freud, 1933), na qual examina a questão do que é uma Weltanschauung (uma visão de mundo) e se dedica a pensar as várias visões de mundo entre as quais aquela que teria sido fundada a partir de uma leitura marxista.
Esta articulação Freud-Marx seria depois objeto de muitas controvérsias que dividiriam marxistas ocupados em arrastar Freud para a episteme marxista, e freudianos ocupados em arrastar Marx para a episteme freudiana, em todo o caso marcadas sempre por uma tentativa de síntese.
Em Lacan encontramos uma articulação que não visa à síntese, afinal é assim que ele permanece mais profundamente ligado à perspectiva freudiana de não criar com o concurso da Psicanálise visões de mundo, que são, como tais, sempre sínteses por si mesmas.
O que faz Lacan é confrontar ambos a uma mesma interrogação evidenciando a necessidade de se traçar outros limites, diferentes dos que se construíram até então na oposição destes autores, para marcar o que lhes aproxima ou os afasta.
Por esta razão cremos que um tal percurso nos habilitará a escandir através desta imbricação, psicanálise-educação-capitalismo, questões que repercutem sobre os três campos em questão. Uma ocasião a mais para confirmar que o método da Psicanálise nos implica mais em levantar questões cujo poder está em seu potencial de surpresa, de inusitado, apostando que é assim que se começa alguma coisa que tem a ver com transformação.  
Neste caminho nos depararemos inevitavelmente com o papel da Ciência (escrita com maiúsculo para indicar seu viés totalitário enquanto modelo que se propõe tudo explicar) por tudo que ela passou a representar neste contexto capitalista.  
Ela se apresenta, de fato, dominante, a um tal ponto que se tornou justificável considerá-la como sendo um discurso, o Discurso da Ciência, ou seja, tornou-se possível pensá-la não só como uma atividade específica entre outras do ser humano, mas como alguma coisa cujo impacto social altera a dinâmica do que produz os laços sociais.
Seja na Educação contemporânea, pela hegemonia dada à discussão metodológica neste campo, seja no campo das várias terapêuticas que tentam se propor como alternativas ao sofrimento humano, para qualquer segmento do tecido social para onde se olhe a ciência apresenta seu manto e sua promessa de que com ela as coisas andam melhor. Em todo caso tornando evidente que não podemos mais pensar sem considerar o que a ciência tem a dizer sobre o assunto.
Principalmente pelo seu empenho em dar uma imagem de respeitabilidade e discernimento a um conhecimento constituído que sempre está, por sua vez, de algum modo ligado ao impulso dos indivíduos a um consumo do que lhes fará bem.
Se na época de Galileu o que fascinava na Ciência era a revolução das idéias, o balançar de uma visão de mundo que ela causava, o que nela fascina hoje é certamente os objetos que ela põe no mundo.
Triunfo inegável da dimensão Técnica (aqui com maiúscula para indicar a tendência atual da discussão técnica se emancipar de qualquer outra discussão) da ciência sobre sua dimensão investigativa, cujos efeitos não cessamos de experimentar a cada instante.
Por esta razão foi necessário se cunhar o nome de tecno-ciência para marcar uma diferença entre o que se configura como atividade científica nos dias de hoje e a atividade científica que já havia primado, numa primeira etapa, pela interrogação do significante mestre (enquanto discurso da histérica), com Galileu, por exemplo, depois pelo acúmulo enciclopédico dos vários saberes reunidos com vistas a uma totalização (discurso universitário) e que passa agora a funcionar segundo as coordenadas de uma demanda incessante de seus serviços de aplacamento do mal-estar no mundo.
Não que a ciência não apareça mais nestas modalidades discursivas que um dia já lhe foram dominantes, mas que ela extrai sua notoriedade e, sobretudo, seu poder atual da condição de prestadora de serviço a uma sociedade que clama pela igualdade no acesso a estes objetos que ela cria.
Por isso, aliás, as regras de seu jogo, ou como diz Askofaré (2005,p.105) seus significantes mestres : “....experimentar, calcular, verificar, prever, avaliar, inovar. Ou seja, dominar, submeter e controlar as relações e os problemas do laço social sobre um fundo de forclusão do sujeito, de forclusão das ‘coisas do amor’ e de forclusão da contingência.” (tradução livre)
Tais regras apenas indicam a relação estreita entre os métodos dos quais ela se vale e os serviços que ela pretende prestar.
A própria Psicanálise, filha bastarda da ciência, é com freqüência interpelada em seus critérios de constituição de conhecimento, mas, muito mais, hoje em dia, num outro campo, mais soberano, o campo da eficácia, cuja soberania é apenas mais um indicador do tipo de imbricação entre capitalismo e Ciência tal como a estamos considerando.
Interpelação da Ciência cuja armadilha se monta através da colocação em prática de duas estratégias fundamentais: a primeira consistiria em fazer passar como homogêneo um paradigma que é apenas hegemônico e cuja hegemonia se mantém exatamente por sua relação estreita com o projeto capitalista; a segunda consistiria em forjar objetivos operacionais simplistas, reducionistas, cujo fácil alcance possibilita sustentar uma imagem de eficácia.
Como vemos, para a Psicanálise fazer a crítica desta Ciência com seu projeto totalitário é vital e desta ela não pode se esquivar sob pena de ver sua especificidade, sua característica e sua continuidade ameaçadas neste mundo.
Quanto à Educação a questão não parece ser diferente. Se ela se deixa engolir por este paradigma vê se apagar de seu horizonte sua dimensão propriamente ética. Ética porque, a semelhança da Psicanálise, ela é uma práxis e como tal, não pode cessar de rever seus métodos em função de seus objetivos e jamais rever seus objetivos em função de seus métodos. Se a Educação cede espaço à questão metodológica, típica da tecno-ciência, não poderá evitar de se deparar com a confusão de rumo, inevitável para quem apesar de parecer ter alguma clareza sobre como fazer, perdeu qualquer noção de para onde se está indo.








A ciência capitalista e a posição política da psicanálise


O conhecido receio de Freud de que a Psicanálise se visse reduzida a uma especialidade ou uma prática médica levou-o a estendê-la a outros campos da Cultura. Deste receio poderíamos tirar pelo menos duas lições: a primeira é que a Psicanálise não é exclusivamente médica. De fato, o percurso de Freud na constituição de sua teoria deixa evidente que ela reclama uma especificidade em relação a este campo.
Embora ela vá ainda manter alguma ligação ao campo médico, seja em seu viés terapêutico, seja porque conserva uma nosografia de referência, ou ainda porque pretende, a diferença das estratégias místicas, estabelecer um entendimento racional e natural sobre a doença mental, o entendimento do que vem a ser um sintoma ou uma doença e conseqüentemente uma estratégia de tratamento são radicalmente diferentes.
A segunda lição, entretanto a se tirar deste receio a encontramos no termo especialidade, impróprio à Psicanálise, pois ela não se constitui ao modo das especialidades, ou seja, em torno de um objeto específico, como o sistema gastro-intestinal, ou cardio-vascular, por exemplo.
De maneira alguma poderíamos tratar o Psicanalista como um especialista do inconsciente que é o mesmo que tomar o inconsciente como um objeto positivável sobre o qual se poderia incidir de maneira objetiva.
O analista trabalha no campo do inconsciente que não se faz só, como sabemos, do inconsciente do analisante, senão que se articula ao inconsciente do analista, não intersubjetivamente, como dois inconscientes que se relacionam, mas do mesmo modo que o prisioneiro da anedota contada por Lacan(1966)  em seu texto “O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada”, que precisa se apoiar no que seu companheiro de cela está pensando para poder descobrir o que está marcado em  suas próprias costas e obter, então, a estimada liberdade.
Nem a Psicanálise é a especialidade do inconsciente nem se constitui num campo geral, como a Medicina, que se dividiria em especialidades. Não existe uma Psicanálise da criança, do casal , da instituição, etc.. A Psicanálise é sempre do sujeito.  
De fato, uma especialização, emblemática na Medicina (a ocidental, pelo menos) desde seu início, que indicava uma necessidade de repartir para “melhor compreender” caminha nos dias de um Capitalismo reinante para uma superespecialização, da qual todos nós já fizemos mais ou menos a experiência.(afinal quem pode escapar do poder totalitário do discurso médico?).
Superespecialização que por sua própria lógica se constitui em um aprimoramento no domínio do objeto e que caminha na direção de esgotar o objeto de sua investigação gerando um conseqüente empalidecimento da pergunta face a morte dela pela resposta.

Não estaríamos diante da dificuldade muito particular de não mais poder pensar o que nos acontece a não ser convocando disciplinas que teriam já, por si mesmas, esgotado o que tentariam identificar? Não estaria aí uma das razões maiores- se não a razão- de nosso embaraço para sair da superespecialização que conhecemos? (Lebrun,2004,p.16)

Uma superespecialização que cria, então, uma servidão da pergunta (do desejo, portanto) à lógica imposta pelo recorte que o objeto impõe.
Superespecialização que testemunha o triunfo de uma lógica operativa característica da tecno-ciência que coloca em primeiro plano uma necessidade de gestão.

Podemos atribuir isso ao fato de que o saber científico é de tipo ‘operativo’, quer dizer, visa e permite o domínio e a predição do real. O que doravante constitui critério de validade, até mesmo de valor, é que isso caminhe, que isso funcione! Só resta aprender a ‘gerir’ da melhor forma sua eficácia, a valorizar sua gestão (ibid, 2004,p.102)
 .
Uma superespecialização que obriga o especialista a recortar seu objeto a ponto de“tanto saber sobre ele que com frequência nada mais sabe sobre o objeto que habita o campo do outro especialista”.
É como se cada vez mais fizéssemos valer a caricatura do cientista louco como um indivíduo fechado em seu laboratório misturando ingredientes, envolto em objetos e investigações sobre eles sem nenhum contato com pessoas ou vida pessoal.
Um especialista, portanto, que cada vez menos compartilha um solo comum com aqueles que seriam provavelmente seus parceiros mais óbvios.
Por acaso não deveríamos reconhecer aqui, nesta dinâmica da ciência, o que isso guarda de relação com o Capitalismo.
Ocorre aos homens de maior opulência, como já se fez observar, se cercarem cada vez mais de objetos do que de pessoas. E isto, certamente, porque estes objetos dos quais ele se cerca são feitos sob medida para o que ele demanda. E porque razão ele deveria então trocar sua relação com estes por outra com aqueles que além de não se adequarem a sua demanda, ao contrário, e para piorar, lhe demandam coisas?
Lacan escreveria em sua teoria dos quatro discursos esta vitória do objeto sobre o sujeito: os gadjets vencerão?(Lacan,1969-70, p........)
Indicando com uma seta que vai direto, sem barreiras, do objeto para o sujeito escrito na posição de agente ele permite ler o que poderíamos ver surgir com o Capitalismo de transformação sobre o estatuto da relação sujeito-objeto.
Que o objeto vença significa que no lugar de uma lógica (a lógica desejante) na qual cada objeto não seria percebido senão sobre um fundo de ausência (simbólico) em relação ao qual seu brilho (fálico) se sustentaria, viria uma outra lógica, na qual o objeto é proposto como real e adequado a sua demanda, demanda que já não guardaria mais uma relação dialética com o desejo, sempre particular, mas que nasceria das qualidades contidas no objeto mesmo, concebidas para criar a demanda sobre ele. Assim fazendo o círculo se fecha (em detrimento da lógica desejante oriunda do fato de que não há objeto que feche o ciclo da pulsão) começando pelo objeto e terminando nele.
“Temos dito também que o fantasma capitalista faz surgir no real o objeto mesmo, assegurando uma relação entre o indivíduo e o mais de gozar que não passa pela dialética dos vínculos sociais” (Alemán, 2000,p. 102) (tradução livre)
 Os superespecialistas, cada vez mais fechados em seus campos em busca do máximo controle sobre o mínimo problema, cada vez mais focal, sobre o qual acreditariam poder ter o máximo de eficácia.
Na mesma direção, submetida também a uma lógica da primazia da eficácia, por acaso não poderíamos considerar o aparecimento de uma tal concepção dita breve no campo das psicoterapias? Aquela que se sustentaria sobre um foco reduzido da constelação psíquica sobre o qual incidiria em busca de uma máxima eficácia?
A lógica da especialização é antitética a da Psicanálise na medida em que se constrói sobre uma máxima objetalização (assim escrito para marcar que o outro será aí tomado como um objeto), enquanto a Psicanálise, ao contrário, se constitui a partir de uma máxima subjetivação, ainda que seja para encontrar no fim algo da ordem de um objeto, aquele que causa o desejo, mas que para nada é semelhante a este que a ciência objetiva com fins de recortar um campo e instaurar uma prática.
À sua maneira Freud tenta livrar a Psicanálise de um acoplamento a um campo médico, que implica uma ordem médica tal como dela fala Clavreul (1983) que situa a ordem médica a partir da teoria dos discursos de Lacan que lhe obrigaria a ceder tanto em sua epistemologia, esta construída para realçar o sujeito, mas principalmente em sua ética.
Mas este receio de Freud expressa, sobretudo, uma posição política, reflexão que sempre lhe esteve presente com relação a qual o lugar e o papel da Psicanálise no mundo da Polis. A questão o que é a Psicanálise? é absolutamente inseparável da questão do para quê ela serve?
Não se trataria só de proteger a Psicanálise de um esfacelamento na ordem médica, mas também de proteger o sujeito denunciando aquilo que a ordem médica faz com ele.
Se a Psicanálise é não-toda-ela inscrita no campo médico é porque ela se pretende algo mais do que uma terapêutica. Ela é também, apenas para ficarmos em um exemplo um lembrete crônico no campo do conhecimento humano, daquilo que este conhecimento recalca para erigir-se como tal.
Lacan, por sua vez, também não cessou de se perguntar sobre o lugar da Psicanálise no mundo. Talvez mais explicitamente que Freud, embora na mesma direção que ele, assumiu a questão política da Psicanálise.
Da política da Psicanálise em sua face interna, enquanto o que ela precisa para seguir seu progresso sem renegar seu projeto se origem.

 (...)que no campo aberto por Freud, restaura a lâmina cortante de sua verdade = que traz a práxis original que ele instituiu, sob o nome de psicanálise, no dever que retorna a ele no nosso mundo = que através de uma crítica assídua denuncie os desvios e os compromissos que amortecem seu progresso degradando sua utilização. (Lacan, 1964, p17)

Mas da política da Psicanálise em sua face externa também, para ele indissociável da primeira, mais voltada para o necessário e imprescindível laço com os outros discursos que se articulam no mesmo mundo do qual ela mesma faz parte.
Se ela se fecha na primeira se asfixia teoricamente e repete o ocorrido com a Igreja católica, por exemplo, que fechada num dogmatismo a ser preservado para preservar uma comunidade, se isola dos discursos que a circundam.
Se ela se fecha na segunda o risco é abrir-se de um tal modo em que perde sua especificidade e rigor tornando-se um discurso dócil à política de seu tempo.
Com a teoria dos discursos Lacan dá um passo decisivo na consideração do lugar da Psicanálise face aos outros discursos que se avizinham.
Primeiro porque ao alçar a Psicanálise à categoria de Discurso Lacan distingue o que é a descoberta de Freud sobre o inconsciente e sua lógica, de sua expressão enquanto um dos tipos possíveis de laço social que reúnem analista e analisante num trabalho de cura, e cujo dispositivo tem implicações políticas, seja na comparação a outras propostas, seja no tipo de efeito que pretende gerar.
Depois porque ao estabelecer uma clave de leitura que, escrevendo com as mesmas letras e com os mesmos lugares os quatro discursos, permite aproximar em torno de um critério comum vários discursos e compará-los, articulá-los ao psicanalítico.
E desta elaboração teórica sairia inúmeras possibilidades de leitura sobre o lugar da Psicanálise em relação aos discursos que lhe avizinham e sobre seu papel político no mundo, das quais destacamos uma cuja concepção parece depender sobremaneira de uma certa consideração que teria passado a levar em conta os efeitos de um Capitalismo reinante:

 No que se chama o Terceiro Discurso de Roma e mesmo em outros trabalhos contemporâneos (Lacan) sugeriu um novo projeto ético e político para o discurso analítico. Deveria revelar o engano imaginário que tenta acomodar as pessoas ‘ao bem estar...de seus pequenos negócios’, que ocorrem no cotidiano de sua vida social (Souza, 2003, p.133)

A menção aos pequenos negócios  e ao engodo imaginário que eles engatam os sujeitos não deixam dúvidas de que a reflexão sobre aquilo que seria o papel político da Psicanálise passa pelas coordenadas de um Capitalismo pungente cuja maior ambição seria a de transformar tudo e todas relações em negócio.
Assim constituía para a Psicanálise uma posição política específica, fundada sobre aquilo que ela apreende e recolhe de sua práxis, buscando estendê-lo para o conjunto de suas relações (políticas) com o mundo.
Ao estabelecer um critério comum em relação ao qual comparar e articular os vários discursos ela pode também ser considerada naquilo que faz sua especificidade.

 Não deveria, portanto, guardar a mesma posição das Ciência e das religiões, em sua maneira de abordar o Real. Assim, em oposição às ciências e às religiões, o discurso analítico deveria constituir-se numa prática que buscasse restaurar a Lei e que mantivesse como ética suportar os efeitos do real, para escrevê-lo e se possível ordená-lo. (ibid ,2003, p. 133)

Que seja na exterioridade da Ciência que a Psicanálise se instalou não é só uma constatação epistemológica a que se chega quando nos lançamos a fazer uma certa “Arqueologia do saber”, mas, como demonstrou Foucault (1), é uma posição política efetivamente tomada que situa a Psicanálise no quadro de uma certa “Genealogia do poder”.
 Assim como Freud sabia que não podia deixar a Psicanálise reduzir-se a uma especialidade médica, pelas razões que acima salientamos, Lacan sabia que para manter-se viva sem ver degradado seu uso, ela não poderia deixar de afirmar-se em sua especificidade, não ceder de seu desejo, fazendo face às pressões que uma cientificização dominante e estabelecida de acordo com os interesses capitalistas, lhe faria por força de sua economia discursiva.
Certamente esta é uma das razões pelas quais Lacan resolve escrever mais-um discurso, o Discurso do Capitalista, que comporia com os outros quatro (quatro mais um) o quadro dos Discursos considerados.
Discurso este que, embora se articulando aos termos que Marx levantou em sua leitura sobre o Capitalismo, não se reduz a eles buscando evidenciar através do que é próprio ao campo analítico o que esta nova forma de organizar os laços sociais representa de questões sobre o gozo e, portanto, sobre um Real que é o mesmo do qual a Psicanálise se ocupa em sua práxis.
Com a decisão de associar o nome do Capitalismo a um dos Discursos cuja leitura teria sido tornada possível pelos móbeis que a Psicanálise põe em jogo, Lacan assertivamente assume para a psicanálise uma discussão política e histórica que este termo carrega intrinsecamente.
É certo que, como de hábito, o uso que Lacan fará deste termo não obedece à cartilha de seu universo original. Ao contrário, é na subversão do conceito, produzida ao arrastá-lo para o interior do campo psicanalítico, que este conceito deve ser tomado.  
Muitas coisas se pode ler neste Discurso do Capitalista, mas uma articulação com a Ciência, seu papel e posição neste mundo nos parece evidente, conforme sublinhávamos na introdução, pelo que nela ou através dela foi crucial para que uma nova equação sujeito-objeto fosse proposta.
Ela seria aquela que viria oferecer os meios sem os quais o Capitalismo não poderia se afirmar , ou seja, para a produção maciça de objetos no mundo, os gadjets , aqueles objetos de brilho efêmero que servem apenas para manter um clima de constante demanda, motor do capitalismo, de apelo incessante para um cada vez mais, mais , mais...... . Objetos não mais regrados pelo fato de que algo falta, mas pela promessa de que nada precisará faltar, porque haverá sempre aqueles, desde que pagos, que estarão pensando no que falta para você!
Mas esta Ciência não se impõe apenas oferecendo os meios para uma produção em massa dos tais gadjets, mas também através do esforço para fazer passar seus critérios de Verdade como os únicos seguros e dignos de respeito, o respeito que merece tudo aquilo que recebe a etiqueta de científico.
É por isso que a Psicanálise não pode se desenvolver sem uma certa critica a esta posição discursiva da Ciência.
Em Freud esta crítica não aparece de forma evidente. Ao contrário, vemos nele todo um esforço para fazer a Psicanálise ser reconhecida na Ciência, mas em Lacan, já mais bem posicionado num pós-guerras que lhe permitia ver sem equívocos o projeto da Ciência ( que Freud já começara a entrever no fim de sua vida) de braços dados com interesses econômicos, encontramos mais facilmente esta contestação sobre o que quer a Ciência? , ou o que deveria ser uma Ciência depois da Psicanálise. Todo o texto “A Ciência e a verdade” (1966) é um exemplo disto.
Embora a Psicanálise admita partilhar com a Ciência o gosto pela racionalidade no entendimento dos fatos, não pode partilhar com esta uma crença de que a verdade possa ser esgotada pelo avanço do saber.
Toda reflexão sobre o estatuto científico ou não da Psicanálise pode ser correlacionada com um fundo de preocupação e de interrogação sobre este laço da Ciência com o Capitalismo.
E será esta mesma Ciência que tentou e tenta cooptar a Psicanálise a seus postulados em essência capitalistas que proporá também a Educação seu projeto.
E porque não deveríamos desejar uma Educação cientificamente orientada guiada por um especialista, o pedagogo, que em sua formação teria levado em conta o que as várias ciências afins à questão educativa têm a oferecer para a boa gestão do processo educativo?
Que a figura do pedagogo, tal como a conhecemos hoje, tenha nascido de uma necessidade institucional de gerir o trabalho escolar e que nós consideremos exigível que sua formação deva manter o caráter científico não deveria nos enganar em relação à íntima conexão entre a administração e a Ciência.

A educação, a pedagogia e a psicanálise
 
O estatuto da Pedagogia nos dias atuais e do profissional que emerge desta formação merece nossa atenção, pelo menos pelo destaque que parece ter sido dado ao termo pedagógico que sempre que anexado a um ato qualquer parece creditar a este ato uma aura de adequação, de profissionalismo, de planejamento científico, etc. Isto é pedagógico!, ou então, isto não é muito pedagógico!, são sentenças que visam legitimar o valor das decisões no universo escolar.
De um lado sua aura de cientificidade parece advir mais do fato de que ela reúne em um campo (o campo das questões da Educação) posições das várias ciências que atravessam o campo educativo, do que de qualquer ambição ou possibilidade de configurar para si mesma um campo com objeto próprio sobre o qual pudesse constituir uma investigação. Quer dizer que do ponto de vista epistêmico ela não pode ser mais do que um espaço de articulação destes múltiplos saberes.
De outro lado e, a despeito desta natureza epistêmica, passamos a considerar justificável a presença no interior das escolas de um profissional normalmente ligado à funções administrativas de organização da instituição observando as leis que vigoram, coordenando o trabalho docente, planejando o currículo e as atividades e por vezes um chamado projeto pedagógico da escola, etc.
Esta associação entre as funções administrativas e uma formação científica não deveria nos enganar quanto ao que ela guarda de relação com o que apontávamos acima sobre a imbricação entre Ciência e capitalismo.   
Mas será num outro ponto que esta articulação ficará mais evidente e mais insidiosa. A Pedagogia parece se legitimar enquanto um saber científico e encontrar sua garantia de vida no universo escolar num ponto sobre o qual ela parece ter feito sua fortuna nas instituições escolares atuais: a metodologia.
De fato, o pedagogo aparece como um especialista sobre uma discussão que atravessaria todas as disciplinas que são ensinadas na escola.
Para além das especificidades da Matemática, da Física, da Biologia etc. haveria algo geral a todas e que se assenta em um conhecimento sobre como se aprende ou sobre como uma criança se desenvolve.
Na verdade mais do que simplesmente oferecer um conhecimento a mais (o metodológico, no caso), que se agregaria aos conhecimentos dos professores em seu trabalho, o que parece ter sido a marca desta entrada do pedagógico na escola é um deslocamento do valor dos conteúdos específicos de cada disciplina que passariam agora a ser requalificados não mais pela lógica interna à disciplina, pelo seu peso histórico nela, mas segundo os critérios desta metodologia adequada ao aluno e seu desenvolvimento.
Esta mudança significou um predomínio da discussão metodológica sobre a discussão específica que cada disciplina trazia a propósito de seu ensino, do que parece dar provas o espaço que ocupa na preocupação da Pedagogia atual o debate Piaget ou Vygotsky, autores que foram reduzidos em suas contribuições teóricas apenas naquilo que deles se poderia retirar de subsidio para uma metodologia.
Ora, esta hegemonia da discussão metodológica no cerne da Pedagogia não seria tributária do paradigma da Técnica, típico da tecno-ciência, tal como apontávamos acima?

Em uma época em que o discurso corrente- o disco muito-rodado- evocado por Jacques Lacan- é o das ‘simplicidades gerenciais’, o das ‘propostas ingênuas para a manipulação ultra-moderna’ e onde tudo visa a ‘uniformização das práticas e dos discursos segundo os imperativos da ciência e da técnica’, não devemos nos surpreender ao ver as práticas educativas e pedagógicas reivindicarem em alto e bom som a total racionalidade e cientificidade de suas démarches, a inteligibilidade exaustiva de seu objeto. (Imbert, 1996, p.11) (tradução livre)  

É neste paradigma da Técnica, pelo que há nele de empuxo à generalização, apagando idiossincrasias e especificidades, que a Pedagogia passa a ser o pedagógico, entendido como atributo geral do trabalho educativo.
Em vez de pensar que cada disciplina poderia estabelecer seus métodos a partir da natureza de seu conhecimento e investigação optava-se, com a assunção do termo pedagógico, por uma discussão sobre o método que se fundasse mais sobre as características d”O” Aluno, figura que permanece ainda problemática dada a natureza forçosamente abstrata de sua concepção.
Tal abstração se constrói ainda com o complemento de outra sobre “O” professor, que comporia ao lado do aluno o outro pólo da célebre díade “relação professor-aluno”, que povoa o imaginário e a formação do atual pedagogo ou professor.
De posse de conhecimentos forjados sobre “O” Aluno o professor imagina poder ir para a sala de aula e usá-las com os alunos com os quais ele efetivamente se defronta.
O que parece ser calculadamente evitado com esta operação é tudo aquilo que tem a ver com o encontro, inevitável de todo modo, como é sabido, mas mesmo assim... É neste mesmo assim que a lógica da evitação demonstra sua presença. Não é que não se admita que o encontro é determinante no resultado e que é só nele que qualquer resultado é possível, mas é que este fato é renegado em função da eficácia institucional que a operatividade do saber científico oferece à administração.
Poderíamos apontar ainda o que esta pretensão universalizante e de apagamento das diferenças tem a ver com o projeto da Ciência de transformar tudo em enunciados, promovendo a ruptura com o lugar da enunciação, neste caso, fundante em cada disciplina.
Se apesar da história da Matemática, da Física, ou da Biologia o método para ensiná-las é o mesmo, a história destas disciplinas fica negada, seus impasses, suas tensões, passando uma imagem de que ela se resume aos conceitos que sobreviveram e que podem ser apresentados em enunciados.
Este é mesmo um dos modos de se compreender o famoso aforisma lacaniano de que a Ciência foraclui o sujeito.
A relação professor-aluno parece adquirir o mesmo estatuto da relação médico-paciente, por exemplo (o que por si só já indica como as especificidades vão desaparecendo em nome de uma unidade dita científica), ou seja, uma relação entre um saber e um objeto que substitui, no caso, a relação entre sujeito e sujeito que é aquela onde o inconsciente faz sua marca pela transferência, sobredeterminando o destino do que se passará aí.
Este reequacionamento do jogo de forças entre esse saber geral, metodológico, e os saberes de cada disciplina iria se recolocar ainda no campo da definição dos objetivos da Educação.
Passou-se a propor como objetivo da Educação o desenvolvimento das potencialidades no lugar do paradigma anterior que era a Transmissão de um legado cultural
O predomino do termo desenvolvimento sobre o termo transmissão não poderia passar desapercebido ao discurso analítico no qual estes termos receberam um tratamento cuidadoso em função do que representam para questões cruciais para a Psicanálise.
A relativização e o reenquadramento que a Psicanálise opera em relação a uma perspectiva desenvolvimentista do ser humano, especialmente feita por Lacan (cf. Seminário XI, 1964) retomando uma discussão daquilo que teria se tornado na Psicanálise uma certa concepção do desenvolvimento libinal ou psicossexual, é exemplo disso.
De outro lado, a importância dada a idéia de transmissão como algo estreitamente ligado à questão do como se aprende algo é outro exemplo disto.
De fato, relembrando uma distinção feita por Arendt (1968) entre vida e mundo, diríamos: o mundo é o objeto que qualquer Educação visa transmitir. Ele não é um dado da Natureza cuja apreensão dependeria somente da evolução, do amadurecimento do indivíduo; Já a vida, por sua vez, é aquilo que se desenvolve e cumpre seu circuito até o fim.Ela é o desenrolar de um saber instintivo submetido às vicissitudes do tempo e do espaço.
A Educação está ligada mais a ordem do mundo do que da vida e o desenvolvimento está mais ligado a ordem da vida do que do mundo.
Educar implica inicialmente e, sobretudo, inserir num mundo que de modo algum é algo que apenas prolonga os atributos de uma vida. Ao contrário, há todo um esforço de Freud para mostrar que é na ruptura com os determinantes da vida (digamos o instinto para referenciar este campo), ou pelo menos em sua subversão, acedendo aos determinantes do mundo (diremos pulsão para marcar este outro campo)  que o ser humano se torna propriamente humano.
Todo desenvolvimento vai ter um lugar que é sobredeterminado pelo que acontece de particular nesta ruptura.
De modo algum educar seria acompanhar o desabrochar de potencialidades, ou estimulá-las para que melhor se desenvolvam, de potencialidades que de todo modo já estariam ali  apenas esperando o toque mágico para que tomem seu rumo certeiro.
Ao termo de desenvolvimento, indicativo de desdobramento de uma lógica geral, já traçada em seu telos podendo apenas ser obstruída ou estimulada, a psicanálise oporá o termo destino, mais característico da aventura com fim incerto, particular que dá um papel decisivo para o acaso.
Não que a Psicanálise irá desconsiderar que haja um desenvolvimento, mas que certamente ele não é do sujeito. O que se desenvolve tem a ver com o Ego
O sujeito se constitui e o Ego se desenvolve, assim se articula a partir da Psicanálise estes que são para ela dois campos e não apenas um.
Neste sentido a infância, por exemplo, será menos considerada enquanto uma etapa da vida, superável, portanto, mas muito mais enquanto detentora de um potencial estruturador do psiquismo característica que mereceu que se atribuísse um outro nome com fins de diferenciação: o infantil. Assim nomeado para designar mais um atributo do humano do que uma fase de seu desenvolvimento. O sujeito e seu desejo são sempre infantis
O empalidecimento da idéia de transmissão e o relevo dado ao termo desenvolvimento, característicos desta nova proposta educativa, supõem uma lógica individualista na medida em que embora se justifique a presença de alguém que estimule este desenvolvimento, o lugar onde este ocorrerá é o corpo de um indivíduo.
Na idéia de transmissão, por sua vez, encontramos uma premência da relação com o outro, uma vez que ela obriga a considerar a presença de alguém que transmite e de alguém que recebe esta transmissão. Sem o outro não há o que ser transmitido.
Lacan destaca que talvez não pudesse considerar o discurso do capitalista como um discurso na medida em que a noção de discurso está intrinsecamente ligada ao fazer laço social, enquanto o que se escreve neste discurso é exatamente sua tendência a impedir o laço social: o sujeito se referiria sempre e somente a ele mesmo, se representaria a si mesmo.
A figura do self-made-man talvez seja o emblema disto, ou seja, alguém que se faz por si e de si mesmo.   
É isto que Lacan escreve alterando no Discurso do Capitalista a posição das setas fazendo-as atingir uma circularidade jamais encontrada nos discursos anteriores, que indica que neste discurso se pretende criar a possibilidade da relação sexual, ou seja, a boa equação, sem falhas entre o sujeito e o objeto.
Acontece que a relação sexual é impossível desde que entramos no universo do desejo, é ela que é responsável pela organização do laço uma vez que o laço social é aquilo que se funda exatamente porque a relação sexual é impossível.
Desde Freud compreendemos que o empuxo à relação com o outro, o famoso gregarismo do qual nós humanos damos provas sem equivalentes no plano animal, obedece uma lógica mais libidinal do que da ordem da necessidade. Tem a ver com o fato de que não nos completamos com o objeto, objeto que por ser da pulsão e não do instinto só podemos circundá-lo sem atingi-lo. Buscamos o outro porque há nele, acreditamos, algo nos falta.
Uma certa versão das idéias piagetianas que viria dar estatuto teórico a uma pedagogia nos termos que estamos demonstrando, marcaria que o conhecimento é o resultado da ação do sujeito sobre o objeto. Os impasses desta ação funcionariam como os impulsionadores do desenvolvimento do conhecimento. O outro não teria aí senão um papel complementar, jamais elementar. É por isso que o professor começa a ser entendido como um facilitador, intermediador, e não alguém que transmite algo que embora ele não detenha (aqui destaco para ressaltar a famosa crítica feita por esta pedagogia dita progressista ao chamado professor tradicional: a de que ele era detentor do saber) ele porta.
E o que dizer face a isto daquela observação de Freud em seu texto “A história do movimento psicanalítico” (1914) onde ele reconhece ter aprendido alguma coisa de três mestres, mas que nenhum deles estava disposto a admitir que lhe tinham ensinado. Quer dizer, neste caso, que se pode aprender algo de alguém que não porta aquilo que aprendemos dele, mas que curiosamente, mesmo assim, não poderíamos ter aprendido sem o suporte da relação (transferencial) com este.
De fato, aqui somos obrigados a admitir, invertendo os termos da tese básica de toda a Pedagogia hegemônica, que talvez o objeto de conhecimento seja um intermediário na relação entre os sujeitos e não os sujeitos um intermediário na relação com os objetos
Para a Pedagogia hegemônica que acredita que o professor apenas intermedia a relação de conhecimento do aluno com o objeto seria impensável pensar este tipo de presença subjetiva.
Mas Lacan escreverá também alterando a seqüência das setas que o sujeito se torna agente negando sua determinação pela verdade inconsciente.
Se em todos os outros discursos a posição das setas nos leva a começar a leitura do lugar embaixo e a esquerda, lugar da verdade sempre inconsciente, escrita que busca preservar a idéia de inconsciente, neste discurso Lacan nos propõe pensar numa relação do homem com seu inconsciente que não é mais da ordem do recalque, mas da evitação ou da recusa. Algo como eu sei que tenho inconsciente, mas posso agir de maneira a despistá-lo sem que ele me determine.
O sujeito no discurso capitalista pretende não compartilhar o universo que se abre com a castração, mas criar seu próprio universo onde a relação com seu objeto lhe resolveria o problema da insatisfação.
Mas seu infortúnio está exatamente no fato de que ao pretender escapar do determinismo da verdade inconsciente, da castração, longe de obter a liberdade esperada, ele cai na escravidão do objeto, este mesmo que ele acreditava possuir, mas que é levado a descobrir que o possui.
Pos esta razão a desconfiança sobre uma teoria pedagógica que viria elevar ao primeiro plano o desenvolvimento cognitivo e que por esta razão justifica ser chamada de cognitivista.
Ao tentar nos fazer crer que entre o sujeito e o objeto de conhecimento não há nada a não ser uma lógica construída sobre este e que o sujeito deve apreender, reforçando no indivíduo sua crença na mestria deste objeto não estaríamos diante de uma estratégia de negação do inconsciente.
Evidentemente que nenhuma estratégia educativa pode partir da consideração do inconsciente, pois que ela se funda, ao contrário, nas possibilidades que o próprio recalque permite. Não que a Educação recalque, mas que ela se apóia no que está recalcado
Mas que a evitação do inconsciente como mostrávamos acima, por exemplo em uma de suas versões, a da eliminação da idéia de transferência, só pode conduzir as pessoas envolvidas neste processo  a uma perda de rumo, como salientávamos na introdução. Uma perda de rumo que se processa pelo apagamento do sujeito em prol do brilho do objeto, objeto de conhecimento que seja, sobre o qual acreditamos ter Mestria quando na verdade é como servos dele que uma tal Pedagogia parece nos condenar a ficar.
Num tal contexto não é de se estranhar que uma tal Educação repita os mesmos resultados daquela que ela mesma criticou, apenas apresentados numa versão diferente. Ou seja, numa lógica na qual o objeto domina o sujeito, as pessoas são levadas a aprender apenas aquilo que deste objeto já foi enunciado, como se o conhecimento fosse informação  e ficam despreparadas para discutir esta informação como se ela fosse o duplo real do objeto e não apenas uma versão que o contorna.
Descontado um utilitarismo comum que assola o ensino atual, poderíamos nos questionar se a famosa pergunta que transborda na boca dos alunos de hoje não quer também indicar outra coisa: Professor, para que serve aprender isto?




Notas


(1) Os termos Arqueologia do saber e genealogia do Poder são termos que refletem mais do que simples conceitos pontuais, mas se consituem em verdadeiros eixos da pesquisa foucalutiana. Por esta razão os citamos alusivamente, sem referência textual específica.   
 









Referências Bibliográficas

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