FORTALECENDO OS PAIS: DESAFIOS DE EDUCAR, HOJE
Escrito por Marina S. Rodrigues Almeida
Sáb, 03 de Agosto de 2002 03:00
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“FORTALECENDO OS PAIS: DESAFIOS DE EDUCAR, HOJE.”

 Marina S. Rodrigues Almeida
Psicóloga, Pedagoga e Psicopedagoga
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         Diz o ditado que durante a vida o homem deve plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Mas um desses objetivos jamais pode ser alcançado sozinho: O FILHO.

         Ele nunca é um projeto pessoal, vai ser sempre uma produção do casal.

         A criança não nasce pronta, dentro dela vai se formando um casal de pais que são espelhados pelos pais reais que cuidam dela.

         Já na gravidez sem que percebêssemos criamos um lugar para aquele bebê que chegará, este lugar vai determinar qual o papel que esta criança terá nesta família. Podemos citar: o filho que veio porque foi desejado, o filho que veio para salvar o casamento, o filho que não foi desejado, o filho que veio para separar, etc...

         Sendo pai ou mãe nos possibilita  entendermos melhor nossos próprios pais, ou não, e  quando  isto acontece realmente não conseguimos nem parar para refletir o que estamos fazendo conosco e o que dirá com nossos filhos.

         É lamentável quando isto acontece, e quantas vezes resolvemos nem pensar sobre o  assunto que incomoda? Então  o caminho mais fácil é  sentirmos indiferentes a tudo, as nossas dificuldades, as nossas decepções, aos nossos ressentimentos que  acreditamos não ter perdão, aos  nossos sentimentos de culpa e  assim por diante. Mas o que não sabemos é que esta indiferença que criamos para nos defender da dor, é a mesma que nos paralisa em vida. A  idéia de   “o que   vier é lucro” não passa de uma boa desculpa para disfarçarmos  que   sentimos  pena de nós mesmos, por não conseguirmos ir  para frente e olhar para a vida de forma diferente. Esta idéia também é boa para tirar de nossos ombros a responsabilidade do dia-a-dia  e  de como estamos educando nossos filhos.

         Outro jeito que costumamos usar é atribuir as desgraças e infelicidades da vida a alguém ou a algum fato, por exemplo:  Deus quis assim, só acontece comigo porque não tem jeito , foi por causa do fulano que estou assim, se eu tivesse dinheiro às coisas seriam bem diferente, me falta saúde para enfrentar tudo isto,   etc..

Realmente quem ouve isto parece  que as coisas não têm jeito mesmo, só algo muito poderoso poderá modificar a vida desta pessoa, e é claro não será ela . Quem não se pegou pensando assim?  É assim quando estamos nos sentindo muito frágeis e impotentes frente a  uma situação ou problema,  deixamos de considerar as saídas ou tentar aguardar um pouco até que as coisas possam se encaixar novamente.

         Portanto estou falando de esperança, sem isto morremos em vida e a vida é para ser vivida e compartilhada com alguém.

         Por quê isto acontece? Ora, voltamos no começo, e nossos pais? Digo os pais que moram dentro de nós, estão cuidando bem da gente? !

         Chegou a hora de refletirmos sobre isto então...

         Hoje os pais mudaram, temos vivido principalmente a partir do meio do século, profundas, contínuas e velozes transformações sociais, políticas e culturais. Em especial atenção para  a tecnologia. Entretanto, por mais que essas mudanças tenham sido promovidas e desejadas por nós para propiciar uma vida mais confortável,  estamos vivendo resultados indesejáveis.

         Destaco três aspectos dessas mudanças:

Em primeiro lugar, a necessidade de atualização e adaptação a esse “novo mundo” globalizado, por conseqüência  o aumento do índice de analfabetos tecnológicos e funcionais, sejam porque não acompanham o ritmo dos avanços tecnológicos ou porque não estão conseguindo perceber o que acontece; outro dado é o alto índice de desemprego em todo mundo pela substituição tecnológica mais eficiente e barata, sendo que estes fatores de uma forma ou de outra atingem  todos nós.

Em segundo lugar, o desejo de termos uma vida mais livre, prazerosa, quase perfeita, alimenta a idéia de que o ser humano pode dominar e alterar a natureza humana, física e psíquica, citamos o projeto Genoma, clonagem, fertilizações em vitro, etc. Por outro lado, com todo o progresso científico, continuamos lutando contra a fome e a miséria, as pessoas continuam adoecendo física e mentalmente apesar de todos  os confortos e  “remédios de última geração”.

         Em terceiro lugar, o questionamento de todas as formas de autoridade, seja no âmbito político, empresarial, médico, educacional, familiar , etc. É muito difícil nos guiarmos pelas próprias pernas, assumirmos as conseqüências do caminho escolhido, modificarmos nossa atitude reconhecendo muitas vezes que erramos,quer seja em casa, no trabalho, com os amigos, no nosso voto.

         Portanto depois disto tudo, os adultos estão se sentindo muito confusos, desorientados e atarefados com tantas mudanças e conflitos para resolverem. Se nós adultos estamos assim, o que dizer das crianças e adolescentes ? Afinal, não somos o que eles irão ser amanhã ?

         O que você vai ser quando crescer? Uma pergunta muito comum  antigamente, mas hoje caiu em desuso, porque as crianças e adolescentes não estão querendo crescer.

         Crescer para quê? Para virar um adulto aflito, sem tempo, que só trabalha (quando tem trabalho senão é um bico aqui ou ali), anda nervoso, de mau humor, adulto é alguém desencantado da vida, é um chato, quando não é alguém,que não se deve confiar porque é perigoso. Infelizmente é assim que muitas crianças e adolescentes estão vendo os adultos.

         Apesar de todas as transformações deste século, o homem continua nascendo como um animal mais frágil e vulnerável do planeta. Não pode contar unicamente com seus instintos para viver, ele continua sendo dependente de outro ser humano que cuide dele, que dê afeto, proteção, segurança, o eduque para a vida, transformando-o em um ser humano digno deste nome.

         E como as crianças e  os adolescentes estão sendo cuidados?

         As crianças e os  adolescentes  estão sendo gerados e criados por adultos que estão com dificuldades de serem bons modelos de espelhos.Não estão conseguindo transmitir a idéia de que a vida vale a pena a ser vivida, que vale a pena investir no trabalho honesto, digno, nos nossos sentimentos e sonhos, ter  esperança no amanhã.

         Em função disso, há uma crise generalizada de auto-estima nos adultos, que são expressas das mais diversas formas. Há aqueles que se entorpecem com álcool, com o  trabalho, com o futebol, com a maconha, com a fofoca da vizinhança, com a saúde que nunca vai bem, com o bingo, com a violência. A lista pode ser enorme, porque de alguma forma estão tentando escapar da realidade a ser enfrentada.

         Enquanto isto, as crianças e as adolescentes  vão à escola e os professores verificam o tamanho da catástrofe. Além, obviamente de estarem passando pelo mesmo processo.

         As crianças estão chegando à escola, infelizmente, sem a estruturação necessária básica, que deveriam ter. Os adolescentes então se rebelam enfrentando e agredindo qualquer forma de autoridade,  desrespeitam regras e leis, sem falar da agressão ao ambiente escolar.

         Porém para dar afeto, atenção, cuidados, proteção, delicada firmeza, modelo de autoridade que uma criança ou adolescente precisa, é necessário que o adulto tenha razoável estoque destes conteúdos dentro de si, ou seja amor próprio suficiente, segurança emocional , confiança nos seus valores, compreensão suficiente do mundo ao redor para dividir com os filhos.

         Não são exatamente estes conflitos que a escola está vivendo? Estes conteúdos emocionais que os pais não estão conseguindo passar para os filhos são atribuídos para a escola, ou melhor para o professor . São atribuídas  as falhas das figuras parentais, e não só a este profissional de educação  mas a profissionais de saúde, da igreja, etc., papéis que são deles,  mas sentem-se incapazes de exercê-lo.

         E o que fazer com isto?

         Uma primeira idéia é que todos nós estamos no mesmo barco, e se não nos unirmos não chegaremos à praia, afundaremos no mar. Portanto o medo , a insegurança,  o cansaço, a falta de afeto está em todos nós.

         Quantos de vocês já tinham parado para pensar sobre estas mudanças do mundo e que estivessem atingindo a todos?

 E  sobre os nossos medos, as nossas  carências, sobre nossa brutalidade e violência com nossos filhos, pois é mais fácil bater, castigar uma criança, do que  refletir que estamos  com raiva do chefe que chamou nossa atenção ou que  estou revoltado porque ganho pouco e queria  comprar uma porção de coisas e não pode ser agora!. Em nome da minha frustração, impaciência  etc, uso e abuso da minha autoridade ou da minha irresponsabilidade de pai ou mãe deixando de cuidar dignamente dos meus filhos, já que são meus faço o que quero. Também não é mais bem assim, temos leis  e órgãos públicos que protegem as crianças e adolescentes e exigem dos pais isto.Podemos citar o Estatuto da Criança e Adolescente, os Conselhos Tutelares, a Promotoria da Infância e  da Juventude, etc.

         Nós enquanto pais precisamos sentir orgulho pelos nossos filhos, por nossa capacidade de trabalhar honestamente, por dar pequenos confortos com dignidade, por não saber muitas vezes uma porção de coisas e poder perguntar ou dizer que não sabemos ou que vai procurar saber com alguém ou que o próprio filho pode ensinar.

         Também costumamos dizer que não temos tempo, que estamos cansados, que não temos jeito para dar abraço e beijo. Porém quem disse que é só assim que se demonstra carinho, cuidado e atenção ? Podemos pedir para  os nossos filhos brincarem por perto,  podemos ver suas lições,  podemos admirar seus progressos, seu crescimento...

         Outro fato que acontece muito é aquela frase: eu não sei conversar com meus filhos. Os pais podem  contar a história da família, mostrar fotos dos parentes. Isto é muito útil para as crianças e adolescentes, para nós adultos também, temos a possibilidade de rever muitas coisas boas da nossa infância  e dar novo significado as coisas amargas da vida.  Os pais que se orgulham e sentem carinho por sua infância são muito valorizados pelas crianças, além de estarem conhecendo sua origem, seus antepassados, tendo um contato com os pais.

         Falar sobre a tradição da família, dos parentes o que faziam, o que gostavam, que comida comiam, seus costumes  é um dos referenciais mais poderosos do ser humano. Estes dados ajudam a família a se fortalecer, sentir-se unida, perceber as gerações de antepassados e fazer comparações, também estimula os  sentimentos de continuidade, crescimento e desafio para vislumbrar o futuro.

         O que os pais precisam saber é que todos nós temos nosso valor, por mais insignificante que isto possa parecer, porque estou falando de nossa auto-estima  e nosso autoconceito que anda muito desvalorizado  pela rapidez dos acontecimentos.

         Notamos esta onda de violência em todas as camadas sociais, a imoralidade, a falta de ética, os programas de TV usando abusivamente de cenas de sexo, sensacionalismo, notícias tendenciosas para beneficiar alguns, comerciais  que induzem ao consumo de determinados produtos, etc.  Isto leva todos nos  a um sentimento de enfraquecimento e impotência frente aos acontecimentos.

         Sempre nos ensinaram que temos que acertar, o que não contaram é que para acertar  precisamos aprender com o erro e não ter medo de errar. Parece fácil? Pois então  vamos pensar um pouco sobre essas questões :

         Quantos de nós pedimos desculpas quando cometemos um erro? Quem de nós reconhece que ofendeu, xingou ou falou demais na hora que estava muito bravo, irritado, perdeu a cabeça e fez bobagem?  Quem de nós acha que se nosso filho apanhou do amigo na escola ou na rua deve resolver o problema dando outro tapa? E se alguém de nós achasse uma carteira com dinheiro, um objeto devolveria ? Procuraria  achar o dono? Quem de nós acha que sempre é bom dar um jeitinho de levar vantagem em tudo? Qual seria o nosso preço para realizar algo ilícito?  Qual é o  nosso limite de tolerância com nossos filhos ? Quantas vezes nós escolhemos atender uma necessidade nossa negligenciando a dos nossos filhos? Quantas vezes atendemos as necessidades dos  nossos  filhos e quase nunca a nossa? Quantas vezes nós  assistimos a  um programa de TV , por exemplo “Ratinho” perto dos nossos filhos e eles , quando são mais corajosos, fazem perguntas e  nós deixamos nossos filhos  sem resposta   porque  também não sabemos a resposta? Quantos de nós nos queixamos dos nossos filhos que não nos respeitam, que se vestem  de um jeito impróprio, que não nos ouvem? E nós não estamos fazendo isto com eles? Quantos de nós ficamos preocupados com nossos filhos  de se contaminarem com a  AIDS?  E a gravidez precoce? Temos conversado sobre estes assuntos com nossos filhos, ou irão aprender na rua, se tiver sorte na  escola? E sobre  drogas,  nós estamos conversamos  sobre isto?  Hoje temos vários tipos de substâncias que  viciam, desde xaropes infantis, como bebidas energéticas, que são compradas facilmente!

Seguiriam outras questões , mas vamos parar por aqui , porque acredito que foi suficiente para refletirmos vários valores e posturas que temos  constantemente.

         Pois bem, a saída é começarmos a questionar tudo isto, um exemplo disto é o que estamos fazendo agora, pensando sobre estes assuntos.Todos notaram que não é nada fácil parar para  pensar sobre estas perguntas que  provocam em nós muita angústia e ainda  exige de nós  respostas apropriadas a cada situação. O que podemos concluir e aprender  com isto?

Precisamos nos unir com alguém para discutirmos tanta coisa. E é aí que entra o papel da  escola . Precisamos transformá-la em nossa aliada e não num depósito dos nossos problemas. Por exemplo, podemos solicitar que a escola crie cursos, oficinas,  palestras com profissionais,que as  reuniões de pais sirvam também  para discutirmos  temas polêmicos ou novidades da ciência , e não só o desempenho dos nossos  filhos, ouvir  reclamações, pedir a colaboração para APM, etc., não desqualifico estes avisos,  mas acredito que podemos conviver com as duas propostas e  com certeza a carga de problemas e conflitos  escolares diminuirá.

O  que mais ouvimos hoje em dia é a falta de limites dos pais com os filhos e por conseqüência a agressividade, a violência, o que está acontecendo? Se considerarmos que os pais sentem-se muito culpados por estarem fora de casa por muitas horas e que a vida que levam não é uma maravilha, já é um bom começo. Normalmente agimos por compensação de nossos sentimentos, precisamos reconhecer que o mínimo que ficamos com os filhos deverá ser para cuidar e educar mesmo que isto pareça firmeza demais, pois só parece porque é necessário.

A violência está sendo gerada por vários fatores sociais, econômicos, culturais e emocionais sem dúvida, mas se  perdermos a noção do que é ser tratado bem, com respeito, com diálogo, com humor, com amor, com ética, realmente só nos resta agir pela impulsividade, pela crueldade, pela vantagem, pela vingança ...  A  ordem neste momento é o diálogo, é permitir que nossos filhos  brinquem  de bandido-moçinho, polícia-ladrão, que possam elaborar regras e leis, quem é do bem e do mal, através das brincadeiras  tudo isto é possível sem machucar ninguém . O ser humano é o único animal que precisa aprender a canalizar sua agressividade de forma adequada e criativa. Os adolescentes questionam isto o tempo todo, porque estão  carentes  por seus pais reconhecerem ,  que vale a pena ser honesto, digno, ter respeito,etc...No momento a sociedade oferece poucos modelos identificatórios bons, poderia citar Sandy e Jr...

O que sabemos em Psicologia é que o ser humano guarda sempre dentro de si a emoção mais forte, portanto temos que ter cuidado ao repreendermos nossos filhos com castigos, gritos, ameaças, chantagens, surras, comparações, humilhações,  etc...Se isto estiver acontecendo conosco, indica que  algo vai mal na educação de nossos filhos.  A grossura deseduca porque fica a dor. Temos sempre que começarmos por nós mesmos  questionando porque estamos agindo assim, porque estamos perdendo a autoridade, porque estou cedendo tanto, geralmente encontramos as respostas em nós mesmos,  às vezes temos filhos difíceis, porém  “é o maior que cuida do menor”.

Qualquer um sempre tem algo para dividir, ensinar, compartilhar, precisamos aprender a conviver com a diversidade de valores, crenças, raças, e estamos aprendendo isto agora, esta é uma das vantagens do progresso, à necessidade de nos unirmos, de nos conscientizar que somos  agentes de mudança e não mero espectador dos acontecimentos.

A felicidade dos nossos filhos geralmente inclui também a alegria dos pais. Portanto a melhor saída é caminhar próximo dos filhos, pois só assim todos vão chegar ao mesmo objetivo.

 

 

SUGESTÕES PARA LEITURA:

 

“Educar Sem Culpa”  Tânia Zagury  -  Ed. Record.

 

“Sem padecer no Paraíso”  Tânia Zagury  –  Ed. Record.

 

“A Auto –Estima do Seu Filho”  Dorothy C. Briggs  –  Ed. Martins Fontes.

 

“Seja Feliz Meu filho”  Içami Tiba  –  Ed. Gente.

 

 

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